Unidos do Jacarezinho: Um outro olhar sobre a favela

No dia 6 de maio, a polícia do Rio de Janeiro fez uma operação na comunidade do Jacarezinho, uma das mais pobres e violentas da cidade e a mais negra das chamadas favelas do Rio, com a alegação que seria para o tal chamado combate ao tráfico de drogas na localidade. O resultado foi o extermínio de 27 pessoas numa operação que, segundo a imprensa, foi a mais letal praticada contra favelas no Rio de Janeiro em toda a sua história.

As favelas, construídas nos morros do Rio de Janeiro no início da República brasileira, foi uma arquitetura desesperada construída pelos excluídos de maioria negra como resposta ao descaso das autoridades com as vidas dos pobres da cidade no início da Primeira República.


Foi no Morro da Providência que surgiu a primeira favela da cidade do Rio de Janeiro, criada em 1897 por combatentes da Guerra de Canudos que voltaram ao Rio para conseguir a casa que o estado tinha prometido como recompensa pela atuação na revolta (Reprodução/arquivo Google)


Ao longo de sua existência as favelas cariocas se tornaram alvo de discriminação e local visto, por boa parte da opinião pública, como antro da criminalidade e barbárie e que deveria ser combatido com o rigor da lei e da arma. Pouca coisa foi feita para incluir as favelas e os favelados na chamada agenda política institucional carioca. Quando olhamos para os morros do Rio já vêm em mente imagens de tiros e corpos negros estendidos nos seus becos e vielas.

Uma das raras vezes em que não vemos seus moradores estigmatizados pela violência e o banditismo é quando assistimos um ensaio, desfile ou uma exibição qualquer das nossas queridas escolas de samba. Elas surgiram e foram materializadas dentro de nossas favelas por favelados pretos.

Essas mesmas pessoas que o ano todo são discriminadas socialmente e racialmente por parte da sociedade conseguem realizar o maior espetáculo de cultura popular do planeta: os desfiles das escolas de samba.

A favela do Jacarezinho, comunidade em questão neste artigo, foi – como diz um dos seus mais emblemáticos líderes comunitários, Rumba Gabriel, um exemplo de quilombo urbano. Ali se refugiou uma enorme quantidade de negros e negras que foram largados e largadas à própria sorte, de forma irresponsável, pelas autoridades na pós-abolição da escravatura.

Por volta de 1920, o morro do Jacarezinho começa a receber uma boa quantidade de leva de refugiados na parte mais alta do local. Assim, os refugiados ficavam mais perto do céu e longe da polícia, que já naquela época cumpria seu papel de capitão do mato, reprimindo o ajuntamento de famílias negras que não tinham onde morar.

Durante a chamada era Vargas, várias indústrias se fixaram no bairro do Jacaré, onde se instalou a favela do Jacarezinho. Nesse período, ocorreu segundo Rumba Gabriel, uma evolução na qualidade de vida dos moradores da favela.

Isso porque foram gerados empregos nas fábricas e também houve uma melhoria nos índices na área da educação.

A necessidade de avançar na promoção dos direitos humanos e no combate a violações foi a tônica do evento “Direitos Humanos: Ontem e Hoje”, realizado no Dia Internacional dos DH (10/12/2014) na sede da Associação Brasileira de Imprensa (ABI). O debate foi mediado pelo então presidente da Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos da ABI, Daniel Mazola (editor do jornal Tribuna da Imprensa Livre), e contou com a participação da advogada Margarida Pressburger (comissária de Direitos Humanos da ONU); do jornalista e ativista Rumba Gabriel, (bacharel em Direito, teólogo, fundador do Portal Favelas e do Movimento Popular de Favelas); entre outros ativistas e autoridades. Foto na ordem: Margarida Pressburger, Daniel Mazola e Rumba Gabriel (crédito: Iluska Lopes/TIL)