• Bárbara Nascimento

Tiroteio, escrevivência, sobrevivência

"


"Acordei com o tiro comendo, dessa vez bem perto de casa. Fazia muito tempo que não ouvia tiros, desde o início da quarentena. Taí um ponto positivo, para os que insistem em dizer que vamos tirar algo positivo desse período, em que vivemos com medo de perder os nossos e os nossos de nos perder. Meu medo de contrair a covid19 foi invisibilizado pelo medo eminente, que alguma bala atravessasse meu telhado ou parede. Corri, protegi o menino que dormia pesado no cômodo em obra, porém o mais protegido da casa. Foi perto demais, assustei. Agora está mais pra cima no morro. Agradeci não ter aula hoje. A concha acústica Vidigal ecoa tantos tiros em tantos pontos e granadas em tantos outros. Prometi fazer tudo diferente, mas tem trinta minutos que estou fazendo tudo igual. O corpo que havia se livrado da lombra nas oito horas de sono volta a cair. O que aconteceu aqui? Espero notícias na rede. Escrevo no silêncio. Voltou, explosões sérias. Quero cerrar os olhos e não ouvir, mas meus ouvidos procuram o galo, os cachorros, os motores, os gritos. Sem bússola nesta quarentena, nada me localiza. Escrevivência. Sobrevivência."

(Luciana Bezerra, moradora do Vidigal, cineasta, diretora do grupo teatral Nós do Morro)


O depoimento acima foi postado na conta do Facebook da artista. Vários outros moradores do Vidigal também relataram e divulgaram vídeos e fotos dessa manhã tensa no morro. Talvez os relatos não tenham a potência descritiva e intimista presentes nas linhas de Luciana Bezerra. Porém, todas traziam o mesmo sentimento: o medo.


Por volta de cinco horas da manhã, um intenso tiroteio interrompeu o sono dos moradores do Vidigal. A operação da Polícia Militar em conjunto com o Grupamento de Intervenção Tática resultou em uma morte, na área da favela conhecida como 314. A Niemeyer teve o tráfego impedido por cerca de uma hora. Era o Estado, mais uma vez, atuando na favela com o braço armado. Acabou a quarentena policial no Vidigal. Assim como Luciana, toda a favela estava sem bússola e com medo de que uma bala localizasse um alvo.


O rapaz morto durante a operação pertencia à família de uma costureira de máscaras para a proteção dos moradores. Enquanto essa mulher colaborava com a sobrevivência da favela na luta contra a COVID - 19, seu familiar morria por conta da dita "guerra contra as drogas". É urgente a proibição de intervenções policiais em territórios periféricos durante a pandemia. Devido à ação ocorrida hoje, o posto de saúde só funcionou a partir das 13:00 horas. As limitações para a manutenção da sub-existência impostas pelo avanço do coronavírus já são atribulações desesperadoras para a periferia, que não conta com medidas governamentais específicas para esses territórios. A favela precisa da ação do Estado através de medidas de saúde e garantias de sobrevivência; não bélicas.


A cineasta autora do relado acima finda seu depoimento com o termo "escrevivência". O conceito cunhado por Conceição Evaristo refere-se à escrita de si, às narrativas que surgem do cotidiano de mulheres negras. Desejamos que ao falarmos de nossas vivências, as palavras testemunhem para além da sobrevivência. Ansiamos por relatos de vida pungente, digna e valorizada. Merecemos que o medo de contrair a doença não seja inviabilizado por outro eminente, mas por esperanças oriundas de políticas públicas. Temos o direito a outras escrevivências.

405 visualizações

O Portal Favelas é uma construção coletiva de moradores de favelas, para falar de e para as favelas, por meio da integração dos diversos canais de comunicação locais ou regionais.

  • Facebook
  • Instagram
  • YouTube
  • Twitter