• Bárbara Nascimento

Sobre ser mãe de um menino negro no Brasil de hoje:

Atualizado: Mai 25




"Rio, 21 de maio de 2020.


Sobre ser mãe de um menino negro no Brasil de hoje:


Decidi compartilhar aqui um pouco de como estou me sentindo diante do assassinato dos jovens João Pedro e João Vitor. Duvido que alguma mãe preta deste país não esteja, como eu, com o coração partido diante de mais esta tragédia. Entretanto, não é só a elas que me dirijo, pois, mais do que nunca, precisamos que todos e todas entrem nesta luta.


Uma das coisas que mais me orgulho hoje é poder dar ao meu filho uma qualidade de vida que não tive, quando tinha sua idade. Não lhe falta nada: casa confortável, escola de excelência, acesso à saúde e a alguns bens de consumo. Tudo isso ele tem desde pequeno. Entretanto, não tenho como negar que, a medida que ele foi crescendo, um sentimento de angustia e impotência também foi crescendo dentro de mim.


Ainda perplexa com o que aconteceu, fui me deparando, ao longo do dia, com muitas lembranças, que só reforçaram este sentimento de angústia. Vou contar aqui apenas algumas. Com certeza, muitas mães, pretas como eu, irão se reconhecer:


Teve o dia que saímos atrasados para ir a escola. Como era dia de prova, disse pra ele correr na minha frente, que eu iria atrás, mais devagar. Quanto mais ele apertava o passo, mais pessoas olhavam assustadas, algumas chegavam a tentar proteger suas bolsas. Fiquei tão nervosa com aquilo que gritei pra que ele parasse. Decidi que era melhor ele ir ao meu lado, mesmo que chegássemos atrasados. Detalhe: ele estava uniformizado


Teve o dia que ele chegou da escola perplexo. Segundo suas palavras, estava saindo do colégio, quando, ainda na rua do mesmo, lembrara-se que tinha esquecido algo. Ao fazer um movimento brusco pra retornar, o senhor que vinha imediatamente atrás, num impulso, escondeu o celular. Novamente, ele estava uniformizado.


Teve também a noite de um sábado de carnaval. Tínhamos combinado que ele deveria chegar até às 21 h. Como estava passando do horário e ele não chegava, mandei um zap dizendo que ele deveria voltar correndo pra casa, caso contrário, ele não sairia nos dias subsequentes. Quando já estava na nossa rua, ele foi parado por um carro de polícia. Queriam saber porque ele estava correndo. Para responder a tantas perguntas, meu filho permaneceu ali por aproximadamente 15 minutos. Até teste de bafômetro ele fez, apesar de só ter 14 anos na época e, obviamente, não estar dirigindo. Depois daquele dia, nunca mais pedi que ele viesse correndo pra casa.


O dia mais bizarro foi quando, durante uma aula de sociologia, cujo o tema era “racismo e senso comum”, a professora, para ilustrar suas explicações, apontou pra ele e para um aluno branco, dizendo, entre outras coisas que, se encontrasse com os dois na rua, à noite, em lados opostos da calçada, ela optaria por andar mais próxima do aluno branco, mesmo sabendo que seria errado. Em seguida, demonstrando toda sua sensibilidade pedagógica e sem grandes problematizações, finalizou dizendo que, ao chegar mais perto e reconhecesse João, logo o abraçaria e lhe daria um beijo. Não sei se ficou claro pra vocês, mas ela explicou o que era racismo no Brasil sendo racista. Não sei descrever o que senti quando tomei conhecimento desta história. Apesar das boas surpresas que esta história me trouxe, mostrando, inclusive, que o inesperado nos chega quando a gente está mais distraída, o estresse foi grande. A escola foi bastante acolhedora e, depois de muitas negociações, tomou as medidas cabíveis e possíveis naquele momento.


É muito triste reconhecer que tudo que fiz para poder garantir ao João uma vida confortável e digna, não foi o suficiente para garantir sua segurança. Hoje, admito, sou uma mãe neurótica. Tenho muita dificuldade de deixá-lo andar sozinho na rua e quando ele sai, não fico tranquila até que ele volte pra casa.


Hoje, sinto na pele que muitas coisas estão vetadas pra ele. Os limites são claros e, para meninos como ele, reconhecê-los, é uma questão de vida ou morte. Ele não pode correr na rua, andar com o capuz do casaco levantado, fazer movimentos bruscos, sair sem os documentos . E, ainda por cima, precisa rezar para que ninguém grite “pega ladrão”, próximo a ele. Manter o cabelo Black é uma das ousadias que permito - até porque adoro -, mas, muitas vezes, preciso me controlar para não mandar ele cortar. 


Não deixo margens para que ele passe perrengues, que ande com pouco dinheiro, que precise se virar para chegar em casa, que ande de madrugada, cantando pelas ruas com os amigos – experiências tão fundamentais para qualquer adolescente. Eu tenho muito medo. Uma mãe branca poderá dizer: “mas o meu filho também não pode fazer nada disso”. É verdade, a cidade anda muito violenta. Entretanto, a diferença é que enquanto o jovem branco corre sério risco de ficar sem o celular, o tênis, ou quem sabe, toda a roupa, jovens negros, como meu filho, correm o risco de perder a vida. E isso é estatístico.


É difícil pra mim aceitar que na rua, ele é só mais um menino negro, independente do lugar onde mora, da condição financeira da sua família. Na rua, ele deixa de ser o João, filho que eu amo mais do que tudo nesta vida. Este Estado genocida, ao fazer do meu, dos nossos meninos uma ameaça, os transforma em alvos diariamente, lhes negando qualquer sinal de humanidade. Com isso , suas vidas simplesmente deixam de importar. Nenhuma criança ou jovem merecem ser tratados assim. Nenhuma mãe aguenta assistir, impotente, a tudo isso.


Pra mim, a pandemia do Covid 19 e o assassinato destes dois meninos –sim, para nós, eles serão sempre meninos - esta semana não deixa dúvidas: o Brasil acabou! Nós morremos como nação.


Sinceramente, depois de uma semana como esta, já bastaria se começássemos a entender que, quando uma criança morre de forma tão violenta, todos nós morremos um pouco, independente da sua cor."

Ana Paula Zaquieu – mãe do João, 17 anos.

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