Ser tóxico não é uma obrigação







Como diz naquele samba que virou hino, que é verde, rosa e de muitas outras cores: “na LUTA a gente se ENCONTRA”

Algumas pessoas que conhecemos na militância, na luta por direitos, contra o racismo, por terra e trabalho, por respeito e igualdade se tornam irmãs e irmãos. Muitos tornam-se compadres, amigos de frequência em nossas vidas e festas em família e fazem parte de fotos e conversas com muitas décadas de encontros e compartilhamentos. Outras pessoas, queremos nunca mais ver, exatamente como na poesia...


E, como LUTAR para nós não é uma opção e sim a única saída, estabelecemos e aceitamos muitas vezes relações tóxicas, pois acreditamos mesmo nos valores do outro, desde que aceite ver o mundo sob as mesmas perspectivas que adotamos. É uma paradigma que permeia as relações nos diversos campos da luta e que precisamos urgentemente desconstruir.

Falar em primeira pessoa, ajuda a não apontar o dedo para quem quer que seja antes daquele bom e velho exercício que nos foi ensinado: “ao apontar o dedo para os outros, lembre-se de que você tem três que apontam para você”, sussurra constantemente a preta velha dentro de mim.


E enquanto escrevo, faço uma rápida reflexão sobre algo que em família, diferentes pessoas já me fizeram a mesma pergunta: “porque você perde tanto tempo nesse lugar cheio de briga?”

Estou na militância há muitos anos, nestes meus cinquenta e tantos anos. O movimento negro organizado mudou muito desde que entrei. E sempre repito que o principal motivo de seguir lutando é saber que estou em movimento, revendo posições, convicções e até mesmo paradigmas.


Lembrei dia desses, por uma amiga algo apagado da mente: Fui vaiada na UERJ no II Encontro Nacional de Entidades Negras. Como relatora do grupo, toda orgulhosa fui defender uma proposta de política cotas raciais nas universidades.

Eu queria morrer depois da vaia. Sai envergonhada. Mas, naquele dia um militante que viu meu estado ao sair do palco, pôs as mãos no meu ombro e disse: “Eles estão errados. Nós estamos certos!”


Eu poderia ter desistido ali. Mas, aquele gesto de afeto e compreensão mudou o rumo da minha história. E, poucos anos depois a opinião sobre as cotas mudou. Assim a luta preta se faz com fatos, fotos e memórias. Pensar com zelo e carinho sobre como não adoecer a luta é imprescindível. E cuidando da luta, cuidamos de nós. Para nossa saúde física e mental, evitando que outros adoeçam também.


Algumas pessoas quando chegam, nem entendem como lutar e porquê. Precisamos sentir isto, para não causar dor e silenciamento. São vidas!


Vamos combinar que ser militante do movimento negro organizado não é muito simples, pois é preciso entender de história, geografia, sociologia, antropologia, estatística, orçamento, saúde, psicologia, política e direitos. Principalmente política e direitos!