Sem um preto ou preta no juri, Rio escolhe a melhor escola do desfile da vida e da resistência

Com o carnaval de volta à Sapucaí depois de dois anos por conta da COVID-19, as escolas de samba do grupo especial homenagearam a fé, a negritude e protestaram contra a intolerância religiosa.


Nesta terça-feira, (26) serão conhecidas as escolas de samba que mais pontuaram nos desfiles da Marques de Sapucaí neste período de carnaval fora de época. Foi um desfile muito especial onde as escolas levaram para a avenida o grito de liberdade engasgado na garganta há dois anos, desde que começou a pandemia. A grande maioria das escolas do Rio e de São Paulo celebrou a vida e resiliência numa enorme afirmação de identidade do povo preto e das tradições religiosas africanas. O antirracismo e as origens do povo brasileiro estavam muito bem representadas neste desfile.

Quem ficou na contramão desta explosão de liberdade foi a LIESA, liga das escolas do Rio de Janeiro, que, para julgar as agremiações que melhor desfilaram, selecionaram um júri sem uma pessoa preta sequer. Pode até ser uma coincidência, mas é algo revelador que contrasta com toda diversidade e com os movimentos de resistência dos povos preto, indígena e das populações de rua.

Nas noites de sexta e sábado, 12 escolas passaram pela marquês de Sapucaí pelo grupo especial, e a emoção tomou conta. Isso porque este ano, com a volta dos desfiles, as escolas abordaram temas importantes, como a luta dos negros e homenagens a movimentos de liberdade, como o Vidas Negras Importam, ou a personagens negros da história do carnaval como Jamelão, Cartola e Delegado (na Mangueira) ou que faleceram recentemente como Monarco e Nelson Sargento ou personalidades do samba ainda vivos como Martinho da Vila.

Pela primeira vez na história, o Brasil comemora o carnaval duas vezes no mesmo ano, isso porque em fevereiro, mês que a festa acontece, o país ainda estava com alto índice de covid-19, e a celebração precisou ser adiada. Com a volta da festa mais popular do país, as escolas abordaram temas que de alguma forma dialogam com a pandemia que o mundo enfrentou, como a fé e ancestralidade.


Foto: Wellington Melo - ANF

No Brasil, a primeira vez que o carnaval aconteceu foi ainda no Brasil Colônia e era uma festa comemorada somente pelos escravos, onde se fantasiavam e brincavam entre eles, mas somente em 1840 aconteceu o primeiro baile de carnaval do país, mas esse acontecia nos moldes europeus, ou seja, as pessoas usavam máscaras e dançavam valsa.

A festa mais popular do país, marca a luta e a resistência do povo negro, e das religiões de matriz africana. E em 2022, a Grande Rio homenageou o orixá Exu, com o objetivo de combater a intolerância religiosa. Pela primeira vez na história uma escola de samba homenageou o orixá que mais sofre preconceito, e segundo o zelador espiritual e integrante da escola de Caxias, Danilo de Oxóssi, exu é muito associado ao diabo “Exu não é diabo. A maioria das pessoas não sabem o que realmente é o Exu, não estudou Exu. É o orixá guardião, é o primeiro que come na mesa dos orixás. O último é o Oxalá, que é o rei de todos os orixás”, conta em entrevista ao Globo.



Foto: Eduardo Hollanda

Além da Grande Rio, a Unidos da Tijuca e Vila Isabel também se destacaram no segundo dia de desfiles. A Unidos da Tijuca contou sobre a lenda indígena do Guaraná e a Vila Isabel homenageou Martinho da Vila.

O Salgueiro também chamou a atenção, pois abordou sobre a resistência do povo preto e da cultura do Rio de Janeiro. A comissão de frente trouxe integrantes representando a negritude vitoriosa do Brasil, como por exemplo, Machado de Assis e Xica da Silva, além de também citar sobre intolerância religiosa.

Mesmo 2022 sendo o ano em que as escolas mais falaram sobre negritude e religiões de matriz africana, não há nenhum negro no corpo de jurados. Nesta segunda (25), a Liga das Escolas de Samba – LIESA revelou a lista dos jurados e de acordo com a nota de Vinícius Lobo para a Metrópoles, há 45 jurados e nenhum negro. A única negra que estava entre os nomes foi retirada e não se sabe o motivo para o corte. A Liesa não se manifestou sobre a decisão.

O preconceito e racismo se torna cada vez mais nítido, qual a razão para não haver nenhum jurado negro? Ainda mais em um ano em que o tema tomou conta do sambódromo. As escolas de samba surgiram em favelas e subúrbios cariocas, e foi construída a partir do ritual de sociabilidade dos negros pós-abolição. Como a favela e a negritude não vai estar representada entre os jurados?

A apuração dos desfiles das escolas de samba do Rio, acontece na tarde desta terça-feira (26), na praça da Apoteose, na Marquês de Sapucaí. A Apuração será transmitida pela globo a partir das 16h. Cada quesito será avaliado por cinco jurados e a maior nota e a menor são descartadas. A última colocada será rebaixada.

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