Primeira âncora trans/travesti do Brasil

Atualizado: Nov 3

Conheça a história de Sara York

Sara Wagner Pimenta Gonçalves Junior, ou simplesmente Sara York, é a primeira mulher trans a ancorar um programa de jornalismo na TV brasileira. Ela é Mestre em Educação e Doutoranda em formação de professores (UERJ) e uma das articuladoras da Antra - Associação Nacional de Pessoas Trans e Travestis. Essa mulher, trans, travesti, pai, avó, educadora, pesquisadora e professora é agora uma das apresentadoras do “Giro das 11”, no canal do youtube da Tv Brasil 247.

O programa tem como principal âncora o jornalista Mauro Lopes, é sempre apresentado às 11h na TV 247 e aborda temas do cotidiano das comunidades e da sociedade em geral. Estruturado em duas partes, o programa contem sempre uma discussão política, com uma análise de conjuntura e uma síntese das principais notícias do momento.

Também produtora cultural com trabalhos no teatro e na dança, Sara começou como profissional das artes na dança, dando aulas e coreografando espetáculos musicais no Brasil. Desde cedo ela já experimentava o preconceito e a discriminação por ser mulher e travesti.

Clique na imagem para ver e ouvir a Sara

O Brasil é o país que mais mata pessoas trans/travestis, conforme revelam os dados do relatório anual da Associação Nacional de Travestis e Transexuais do Brasil, a Antra, entidade da qual Sara é articuladora. De acordo com estes dados, 175 pessoas trans foram assassinadas no Brasil, em 2020.

Para Sara, é preocupante um país demorar tanto a ter uma travesti a frente de um jornal

“Eu não sabia que eu era a primeira mulher trans a ser âncora de um jornal. Quando eu descobri que sou a primeira, eu me surpreendi muito. Não é possível que isto acontece somente agora, em 2021. Será que não teve nenhuma outra? Eu não sabia desse marco, jamais fui com essa pretensão. A gente tende a comemorar primeiros postos. Será que é motivo de comemorar?”, diz.

Sara Wagner foi convidada pelo jornalista Mauro Lopes para uma entrevista e durante esta entrevista ela foi convidada para fazer um quadro Sextou com a Sara. “Ali a gente começou a trazer pautas sobre mulheres, racismo, etc. Com isso o Mauro foi tirar férias e me convidou para o substituir.”

Até o dia 03 de novembro, Sara vai substituir o Mauro em suas férias no programa diário e depois retorna ao seu quadro semanal SEXTOU COM SARA. Mas o próprio Mauro manifestou o desejo de poder contar com a participação de Sara com maior número de entradas na programação do Giro.

A propósito da estreia da Sara na TV 247, ela recebeu, ao vivo, uma declaração da presidenta da Antra, Keila Simpson, com o seguinte:

"Sara, desejo muito sucesso e muito trabalho no Dia das Professoras, especialmente das professoras travestis e trans! Quero dizer que para mim, especialmente como pessoa trans, é um orgulho imenso ter você nessa frente tão importante, buscando, batalhando e levando sempre adiante a mensagem de que a educação é primordial para todo mundo. A educação não pode ser para alguns, tem que ser ampla, tem que ser discutida em todos os âmbitos e aspectos e você, como professora que é travesti, representa muito bem essa profissão." Keila Simpson, presidenta da Antra

A ativista dos movimentos sociais, Ruth Sales, que também tem um programa na TV como apresentadora, participou da conversa com a Sara e fez algumas observações muito interessantes sobre o papel dos comunicadores populares. Ela destaca a importância do espaço de denúncia do racismo, do machismo, da homofobia, da violência.

Clique aqui na imagem para ouvir a fala da Ruth e da Sara.York:

De acordo com a ONG Transgender Europe, o Brasil mantém a posição de país que mais mata transexuais no mundo. A TGEU monitora 71 países.

Antes de ser professora ou qualquer coisa, eu sou travesti. Eu não sou uma professora travesti, eu sou uma travesti professora. A travestilidade chega primeiro. Eu sou cega de um olho, mas apesar da minha deficiência, eu esqueço que sou cega, mas eu nunca esqueço que sou travesti.”, conta.

Mulheres precisam conviver diariamente com o machismo, que ainda é uma realidade. Mas o machismo e o preconceito se tornam piores quando se trata de uma mulher trans ou travesti “O machismo é uma coisa que eu tenho pe

nsado muito. Na educação não é uma novidade ter um professora trans, são poucas mas elas existem. Já no jornalismo não. Mesmo assim eu sou novidade em cada escola que eu atuo, meu sonho é chegar na sala de professores e encontrar outra travesti lá, e conversar. Temos mais de 200 professoras trans e travestis pelo Brasil, então somos algumas, mas não muitas. O problema é: onde elas estão e porque a gente não se encontra?”

Foto: Lucas Seixas - UOL

é extremamente chocante quando eu estou ali na tela e eu começo a observar que algumas pessoas não gostam da imagem que veem. Ou do modo de falar. Isso fica muito evidente quando eu olho os números de aceitação, os números dos algoritmos”.

“É espantoso como o preconceito acontece com o corpo que não é branco, heterossexual assume a frente. Quanto mais branco e mais parecido com um homem hétero você é, menos preconceito você vive. A gente ainda tem muita dificuldade quando são mulheres trazendo a informação”, conta.


Veja a entrevista na íntegra: https://youtu.be/KI5FlLdCJTo


Uma mulher trans é uma pessoa que foi atribuída ao sexo ou género masculino ao nascer que possui uma identidade de gênero feminina. Mulheres trans podem ser heterossexuais, bissexuais, homossexuais, assexuais ou identificar-se com outros termos (como queer).

Mulheres trans enfrentam uma vasta quantidade de discriminação (transmisoginia, um subconjunto de transfobia), inclusive no emprego e no acesso a moradia, e enfrentam violência física e sexual e crimes de ódio, até mesmo de parceiros ou parceiras. A discriminação é particularmente severa com mulheres trans que são membros duma minoria racial, em que frequentemente enfrentam a intersecção de transfobia e racismo.

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