• Bárbara Nascimento

Precisamos falar de injustiça, precisamos falar do ENEM


No dia da Marcha Virtual Pela Ciência, organizada pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), o Portal Favelas divulga o texto de Alessandra Nicodemos, professora da Faculdade de Educação da UFRJ e integrante do Fórum EJA. Leia abaixo o artigo que dá título a esta publicação.



Precisamos falar de injustiça, precisamos falar do ENEM

Estamos sob o jugo de um governo que aposta na morte como proposta política, morte física, como as que estamos assistindo nas reservas indígenas e nas filas dos hospitais a espera de uma vaga na UTI, mas também morte simbólica e moral de muitos de nós.

Estamos próximos da morte, ela nos ronda nas políticas públicas, nas notícias, nas redes sociais e na vida árida de todo dia que vamos atravessando entre torpor e indignação, pelos menos para aqueles/as onde ela cala profundo, a morte de um ente próximo, a morte de um desconhecido, a morte de um artista, a morte que se faz viva em tempos de pandemia e que não é, democraticamente, distribuída.

Vendo a propaganda do ENEM, eu sinto luto, ela também fala de morte. Ela cinicamente narra a morte com uma banalidade do mal impressionante. A morte de jovens, a morte de professores/as, a morte da Escola Pública, a morte do que as relações escolares podem produzir na contramão dos destinos selados para as classes populares, sejam seus educandos, sejam seus professores proletarizados.

A entrada no Ensino Superior no Brasil sempre foi lugar de injustiça, era ali que o funil estreitava mais. Mas essa história é mais antiga. Eu fiz meu Ensino Médio em uma escola pública da rede estadual do Rio de Janeiro. Em 1986 a gente fazia uma prova para entrar, os que passavam na prova faziam o curso, os que não passavam iam direto para o mundo do trabalho simples e ali encerrava a sua formação. Estudar no Ensino Médio público era um privilégio, era um ‘ENEM injusto’ e que selava, alguns anos antes, os destinos daqueles que continuariam ou não, a sonhar com o Ensino Superior.

Os anos 90 vão progressivamente ampliando o acesso dos mais pobres para o Ensino Médio, sempre controverso, onde os nossos dados de desempenho eram os piores, onde os números de evasão, subescolarização e certificação vazia, dizia pra gente que só acesso não seria passagem para o tal ‘paraíso’ para todos e todas.

Mas ele estava lá, caminhando pelas brechas, construindo no cotidiano de suas salas de aula o que o Brasil pode estampar hoje, a maioria dos alunos das Universidades Públicas são oriundos dessa escola pública de ensino médio, que com todos as suas contradições, foi capaz de colocar esse contingente – que é muito pouco ainda – no ensino superior. Não podemos deixar de destacar a contribuição dos cursos preparatórios de movimentos populares, também dos anos 90 e que ganha um novo e potente contorno nos anos de 2010, e nesse processo, a ampliação de acesso ao Ensino Superior é fruto dessa iniciativa também.

E hoje se aposta, nesse governo de morte, o ceifar dessa possibilidade. A pandemia, não como gestão de crise, mas como projeto, vem acelerar um processo já iniciado pelo governo golpista anterior. O governo Temer, alimentou desde 2017 o ENCCEJA como um exame mais robusto e ainda, retirou do ENEM a possibilidade de certificação do Ensino Médio e essa decisão não pode ser vista isolada. Com ela se acertam dois alvos, se amplia a desescolarização da Educação de Jovens e Adultos, não precisa de escola, só de certificado; e se complexificam a cobrança nas questões do ENEM - onde se diminui o peso da redação e se amplia o peso das questões objetivas -, levando a um processo de ‘cesgranização’ (por falta de um termo melhor) do ENEM, que vai se colocando mais conteudista e consequentemente, mais elitizado.

A manutenção do ENEM no caos que vivemos é só mais uma etapa do ‘projeto’. Hoje todo o debate que estamos tentando problematizar, do caráter excludente da tal educação remota, é detalhe para esse governo da morte. O ENEM já alguns anos, bem recentes, caminha como barreira para a entrada dos mais pobres – o desempenho dos estudantes vem caindo desde 2017, e isso não é sobre conhecimento ou não, isso é sobre nível de cobrança e exames injustos. E agora com a pandemia, levamos essa injustiça ao seu limite, a manutenção do ENEM vai implicar a eliminação de milhares de jovens pobres do próprio exame em si. Mas a vida tem que continuar, né? E a morte também. E temos o outro lado dessa moeda, que é o estrangulamento financeiro das Universidades Públicas. O que está em jogo não é o seu fim, mas a seu estreitamente como oferta de vagas.

Com menos recursos e sem contratação de professores a Universidade vai diminuir o seu leque de atuação. E um processo mais elitizado de acesso garantirá que ela volte a ter o papel que exerceu quando foi criada e ampliada na metade do século XX, a de formação de uma classe média alta urbana no país, uma formação para os cargos, públicos e privados, de mando, gerência e controle social. ‘Está tudo como dantes no quartel de Abrantes’!


Alessandra Nicodemos Em 06/05/2020

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