Governo do Estado nada fala sobre ocupação de favelas pela PM

Atualizado: 20 de jan.

Desde as primeiras horas da manhã desta terça-feira, policiais militares e policiais civis ocuparam as favelas do Jacarezinho e Muzema a mando do Governo do Estado, com o pretexto da criação de um novo projeto/laboratório para substituir as fracassadas UPPs. Com o discurso que fala em “ampliar a segurança pública”, muito pouco se sabe do projeto “Cidade Integrada”.

Não houve diálogo, ninguém sabe quais projetos serão implementados nas favelas, quem será beneficiado, quanto vai custar o programa, de onde vai sair o dinheiro, quais as reais diferenças para o projeto abandonado das UPPs, como isto vai reverter em melhoria na educação, saúde, habitação e trabalho para os moradores.

O ambiente ainda é tenso e o governador Claudio castro prometeu somente para sábado uma entrevista coletiva para explicar quais serão os próximos passos da ocupação.

A rede de Observatórios da Segurança divulgou nota revelando sua perplexidade com a atitude unilateral do Governo do Estado. A nota é a seguinte:

A ocupação iniciada hoje, dia 19, na favela do Jacarezinho, que há oito meses serviu de cenário para um banho de sangue promovido pelo estado, repete fórmula fracassada de ocupação militar e não tem um programa social desenhado. Não há articulação setorial e muito menos diálogos com os moradores.

Cláudio Castro tenta usar a memória dos tempos dourados das UPPs, que na época garantiu a reeleição de Sérgio Cabral, para gerar capital político em ano de eleição. O uso da segurança pública para fins eleitorais é uma receita conhecida para o fracasso e para a violação de direitos da população de favelas. O governador quer ainda instalar câmeras de reconhecimento facial nas comunidades que comprovadamente não impactam nos índices de esclarecimentos de crimes, causam equívocos, aumentam o racismo policial e ainda promovem gastos altíssimos de recursos públicos. Os gastos em prevenção da violência tem que ser feitos em programas de alta qualidade de educação, assistência social, cultura, meio ambiente, urbanismo e saúde, sempre em diálogo com as prioridades dos moradores.

Enquanto o governador Cláudio Castro promete uma grande transformação nas favelas cariocas com o lançamento do projeto carro chefe da sua campanha de reeleição, moradores do Jacarezinho denunciam a invasão de casas por parte de agentes de segurança. Há ainda a paralisação dos postos de vacinação e testagem da covid no meio da nova onda da doença com a variante omicron.

O Rio de Janeiro é um lugar que tem um acervo de erros muito grande em segurança pública e nós precisamos reconhece-los e não repeti-los. A Rede de Observatórios da Segurança exige saber do governo do Estado do Rio de Janeiro quais são as diferenças do programa Cidade Integrada em relação às UPPs. No Rio, quando se trata de favelas e polícia parece que a história apenas se repete. Pelas notícias preocupantes divulgadas no dia de hoje, o projeto Cidade Integrada mais se parece com uma jogada eleitoral do que com um programa responsável de segurança.

Leia a nota no site da Rede - http://observatorioseguranca.com.br/cidade-integrada-fracassada-upps/


Rede de Observatórios da Segurança.

Sete organizações, de sete estados, conectadas com um objetivo: monitorar e difundir informações sobre segurança pública, violência e direitos humanos. A Rede de Observatórios da Segurança é uma iniciativa de instituições acadêmicas e da sociedade civil da Bahia, Ceará, Maranhão, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro e São Paulo dedicada a acompanhar políticas públicas de segurança, fenômenos de violência e criminalidade nesses estados.

Com metodologia inspirada na bem-sucedida experiência do Observatório da Intervenção, projeto do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), que monitorou as ações das Forças Armadas no Rio de Janeiro durante a intervenção federal em 2018, a Rede acompanha 16 indicadores, além dos dados oficiais e orçamentos governamentais que são apresentados ao público em relatórios, infográficos, seminários e encontros.

Além do CESeC, as organizações que formam a rede são: Iniciativa Negra Por Uma Nova Política de Drogas, da Bahia; Laboratório de Estudos da Violência (LEV), do Ceará; Rede de Estudos Periférico (REP), do Maranhão; Gabinete de Assessoria Jurídica às Organizações Populares (Gajop), de Pernambuco; Núcleo de Pesquisas sobre Crianças, Adolescentes e Jovens (NUPEC), do Piauí; Núcleo de Estudos da Violência (NEV/USP), de São Paulo.

Outra dimensão do trabalho da Rede de Observatórios é a criação de diálogo com pesquisadores de segurança pública; ativistas de favelas e periferias; ONGs e movimentos sociais; grupos de mães e familiares de vítimas de violência policial; movimento negro; movimento LGBT; mandatos de parlamentares; Judiciário e Ministério Público; tecnologia e transparência; e comunicação.

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