O Imaginário dá Samba

Atualizado: 1 de mar.

Por Adair Rocha e Pedro Geiser – Rio, 28/02/2022


Aliás, o Samba, por mais que tenha sido "institucionalizado", para o seu controle, é, certamente, a expressão política mais forte, para a recontação de uma história. A primeira versão, não contada pelo sambista, é produto de um imaginário que "normaliza" a desigualdade. Os enredos carnavalescos, via de regra, vão na linha da desconstrução dos modelos geradores da escravização, adequadora, quase sempre, dos preconceitos.

A "banalidade do mal", como afirmou Hannah Arendt, com todas as polémicas produzidas, sinaliza algo orgânico mais profundo. Não ficar tranquilo com os modelos urbanos que "normalizam" a existência do fenômeno asfalto/favela, implica não aceitar o sintoma que substitui a causa: a ação criminosa da desigualdade.

Diante do fenômeno mundial que marca, indelevelmente, a nossa história, a pandemia em curso, o que aprendemos com as contradições escancaradas? No mínimo, dois aprendizados: de um lado, a fragilidade e incompletude do poder público e, de outro, respostas orgânicas de resistência, coletivas e comunitárias, das populações "empobrecidas".

Estamos, portanto, diante de uma mudança cultural na produção do imaginário. Que Samba é esse? É claro que a história do Covid19 será tema de enredo. Qual será sua tradução/composição? Qual incidência da população que mais sofreu baixa? Possivelmente, os profissionais da comunicação comercial poderão se "engasgar" com a narrativa do compositor, como, via de regra, acontece, quando o processo de escravização na história do Brasil é confundido com escravidão.

Na verdade cultura e comunicação são definitivas na compreensão das significações que desafiam os imaginários e sua complexidade. Na verdade, o que está em jogo são as estruturas da sociedade, geradoras dessa desigualdade sem limites.

Ao mesmo tempo em que o imaginário disse o caminho que o Samba deveria seguir, e seus limites no mercado, ambos são também atropelados pela raiz da formação do povo brasileiro, que se transforma na maior expressão cênica brasileira e mundial. Os sambódromos, trios elétricos, blocos e fantasias que semeiam Olinda, Salvador, Recife, Ouro Preto, Rio de Janeiro e as ruas de São Paulo, que estampam a potência da multicentralidade da cidade!

E o imaginário que dá Samba pede as bênçãos de Cartola, de Nelson, de Clara e de Paulinho, de Martinho e Almir, Zeca e Morengueira, com Beth, Alcione e Donga no Fundo de Quintal de Tia Ciata, Pinxinguinha e Jamelão, Elza e Neguinho e quem vier, dá continuidade.


Adair Rocha é professor titular da UERJ e da PUC-Rio

Pedro Geiger e Geógrafo e professor convidado da UERJ.

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