Levante das Mães de Manguinhos marca os oito anos sem justiça pela morte de Johnatha

Clamando por justiça em memória às vítimas da violência policial, o Movimento Mães de Manguinhos organiza o levante no Colégio Estadual Professor Clóvis Monteiro em Higienópolis, zona norte do Rio de Janeiro.

Na última sexta-feira (13/05) foi realizado o 8° Levante das Mães de Manguinhos, com o objetivo de manter viva a memória de Johnatha de Oliveira Lima, jovem de 19 anos, pedindo por um grito de justiça a ele e a todas as vítimas do Estado. A manifestação realizada no Colégio Estadual Clóvis Monteiro, onde estudou Marielle, aconteceu na mesma semana em que, no Jacarezinho, policiais do Core derrubaram o memorial, inaugurado por moradores e movimentos sociais com intuito de homenagear as vítimas da Chacina do dia 06 de maio de 2021.

Em parceria com o Fórum Social de Manguinhos, Justiça Global e Museu da Vida – Fiocruz, o levante proposto pelo Movimento Mães de Manguinhos teve pela manhã, exibição do filme "Cada Luto, uma Luta", seguido de debates, homenagem às mães dos filhos mortos pela violência do Estado e aula de Yoga. À tarde, das 14h às 16h30, teve grafite com o artista Maisalto, intervenções poéticas e apresentação Ballet Manguinhos.

O Portal Favelas esteve presente no levante, conversou com algumas das lideranças que contribuíram para a realização desta edição em Hgienópolis. Ana Paula Oliveira, mãe de Jonatha e fundadora e Coordenadora do Movimento das Mães de Manguinhos contou para o Portal todo o contexto por trás dessa data. Para ela, é importante não deixar cair no esquecimento porque todo dia a polícia mata uma nova vítima do Estado.

- Infelizmente nem todas as mães têm saúde e força para lutar e denunciar em busca dessa justiça. Por isso, quando acontece o levante é exatamente para isso, mais um dia de denúncia, mais um dia de luta, não só por memória, não só por verdade, não só por justiça, mas acima de tudo é uma luta pela vida, mas principalmente pela luta da população preta, pobre, favelada e periférica – desabafou Ana Paula.

A Coordenadora também contou que a partir do assassinato de Johnatha pela polícia em Manguinhos, surgiu o Movimento das Mães de Manguinhos na intenção de acolher outras mães, levantá-las do luto para luta, retirá-las do estado de depressão e incentivar a lutar. A ativista também contou que a ideia de realizar o Levante deste ano no Colégio Clóvis Monteiro, foi justamente pelo fato de Johnatha ter sido aluno deste colégio onde ela também estudou e para colocar o colégio na visibilidade. Para ela, essa invisibilidade passa pela falta de infraestrutura e professores para os alunos.

O genocídio não é apenas o assassinato das pessoas. Quando as pessoas não têm acesso à saúde, à educação, a cultura e ao lazer é também uma forma de morte e assassinato. A Coordenadora do Levante concluiu afirmando que o mais importante é levar este movimento para os alunos, porque eles são o principal alvo dessa violência de Estado. Por isso, precisam refletir sobre tudo que acontece na sociedade.

Maria Paula Bonato, integrante do Fórum Social de Manguinhos, servidora Pública do Museu da Vida e integrante da Frente Nacional contra a Privatização da Saúde, também deu sua palavra para o Portal Favelas sobre esta edição do Levante: "A gente veio aqui para ouvir as mães, ouvir os estudantes e trazer um pouquinho da perspectiva da saúde do ponto de vista da yoga, que é uma prática de vida milenar que promove saúde corporal. Também fala da saúde coletiva que faz parte de uma organização que a gente tem no Brasil com muita força, por meio dos movimentos populares que resultaram na política pública de saúde que a gente tem hoje, que é o SUS.

- Primeiro a gente precisa cultivar a nossa memória, pois as coisas no nosso país mudam o tempo todo. A memória do que a gente tá vivendo, do que está acontecendo com os nossos jovens é fundamental para alimentar nossas lutas. Em especial nas lutas do povo negro que precisa se organizar muito, para sair dessa situação de racismo que a gente vive hoje no nosso país .Eu sou branca mas eu sou uma pessoa que segue e ouve as lideranças negras, porque acho que tanto no Brasil como no planeta em geral as lideranças negras estão apontando caminhos para outras soluções, outras formas de organização planetárias. Incluindo também os povos indígenas que têm lideranças maravilhosas apontando caminhos necessários. A sociedade patriarcal branca do jeito que ela se organizou está resultando em muita destruição e morte, por isso ela tem que ser radicalmente mudada e os envolve também à postura dos brancos no sentido de ouvir as orientações do povo negro e povos originários - concluiu Maria.

Na interação com o Levante, a professora de filosofia do colégio, Fabiana Souza também contou sobre sua articulação para trazer essa edição do movimento aos alunos do Colégio Clóvis Monteiro: "esse colégio é um colégio do território, isso para gente é muito importante. A gente aproxima narrativas e as lutas do território com o que a gente ensina em sala de aula. Para a gente é muito importante, porque traz uma identificação para os alunos sobre as questões do território e gera muito mais interesse sobre questões na sala de aula . Principalmente porque promovem a verdadeira educação emancipadora, a qual é a que a gente acredita. Eu acredito que não sou a única que sou responsável pela educação deles, os alunos têm conhecimento da vida deles, dos territórios . Essas mães não só dão depoimento de vida, elas estão fazendo isso que é muito importante, mas elas também estão ensinando. Elas são tão educadoras quanto qualquer professora que está aqui ".

Para a professora Fabiana o colégio é importante por várias razões, pelo Johnathan ter estudado no colégio e pelo próprio colégio estar precisando de mais visibilidade. Um colégio que só é lembrado pelas políticas públicas, a partir da política de segurança pública . Segundo a professora de filosofia, o colégio também está em muitos aspectos abandonado, por esse sentido, ela achou que seria uma troca, ou seja, o colégio abraça o território e o próprio território também abraça o colégio.


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