LabJaca: a ousadia de sonhar em tempos de crise



Em meio ao pico da pandemia Covid-19 em 2020, com centenas de mortos sendo contabilizados todos os dias, nós, um grupo de jovens negros de diversos territórios periféricos da cidade do Rio de Janeiro, e que têm o Jacarezinho como ponto em comum de atuação, decidimos nos articular para conter o avanço da pandemia do novo coronavírus.


Articulados na campanha, “ Jaca Contra o Corona”, atuamos em 3 frentes, a segurança alimentar, com mais de 3 mil cestas básicas entregues às famílias do Jacarezinho, a comunicação, com a criação de informações acessíveis a realidade do território, e a prevenção, com entrega de máscaras e álcool em gel em diversas localidades.


A inquietude que nos levou a construir uma campanha na urgência da situação, foi a mesma que nos fez questionar os dados oficiais sobre o contágio e a letalidade da Covid-19, no Jacarezinho. A partir de uma vivência cotidiana e de investigações, constatamos que os dados não retratavam a realidade, os números “oficiais” mostravam uma realidade diferente daquela que encontramos ao longo do período em que estávamos atuando na favela.


A partir desses questionamentos nasce o LabJaca, um laboratório de dados e narrativas, e que tem por objetivo a geração de dados cidadã, e a potencialização das narrativas que são criadas cotidianamente nas favelas e periferias, não só no Jacarezinho, mas em todo o Rio de Janeiro.


Em pouco mais de 8 meses de existência, o LabJaca já produziu uma websérie sobre os impactos da pandemia da favela do Jacarezinho, criou diversas parcerias, dentre elas com a Defensoria Pública, com o programa “Defensoria nas Favelas” que busca solucionar problemas judiciais de moradores de favelas, a parceria com a FioCruz, na construção de uma pesquisa sobre o Dengue na favela do Jacarezinho, e com o Prato Firmeza, que tem mapeado as iniciativas gastronómicas no território do Jacarezinho e de Manguinhos.


O LabJaca tem como missão a construção de possibilidades, a criação de dados, a potencialização de narrativas e a visibilização de vozes que historicamente foram silenciadas na dinâmica social do Rio de Janeiro e do Brasil. Pensado, construído e constituído por jovens negros, o LabJaca é a síntese de uma juventude que insiste em sonhar, mesmo em tempos de crise. Esse sentimento precisa ser partilhado, cultivado e honrado. Vida longa ao LabJaca.


Autor: Seimour Souza

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