Jacarezinho, as Investigações e a Disputa de Narrativa

Atualizado: Jun 8

Por Álvaro Maciel


Foto: Patrícia Félix e Rumba Gabriel


Neste domingo, 06/06, na quadra da GRES Unidos do Jacarezinho, patrimônio da cultura do bairro, foi realizado um ato político em função da passagem do primeiro mês após o massacre ocorrido na comunidade. O simbólico local reuniu moradores e lideranças comunitárias da Favela do Jacarezinho e contou com a presença de ativistas de diversas áreas e movimentos sociais.


O massacre do dia 06/05, que ceifou a vida de 28 civis e 01 policial, decorreu de uma ação planejada pela Polícia Civil para cumprir mandados de prisão contra suspeitos de práticas criminosas.


Quero parabenizar a atitude do compositor, jornalista, advogado, Rumba Gabriel, principal liderança do Jacarezinho, que recentemente foi atacado com calúnias por um jornal carioca de grande circulação e não se deixou intimidar. Rumba, que é o idealizador e presidente do Portal Favelas, falou de esperança e externou o seu desejo de ver o mal se reverter em ações para o bem. Ele voltou a responsabilizar o Estado pelo abandono da área social da favela e a cobrar uma nova postura da polícia para combater o tráfico de drogas:


“— Como as favelas recebem essa quantidade de drogas e armas, com todo o aparato policial que temos? A favela não produz droga nem arma. Aqui não tem traficante, tem varejista de droga. Os traficantes estão nas fronteiras, nos bairros chiques. Por que a inteligência da polícia não vai nessa direção? Nós gritamos para não sermos fuzilados, mas nosso grito é criminalizado”. Rumba Gabriel – do Jacarezinho.


As diversas lideranças presentes exigiram transparência e mais informações das instituições envolvidas nas investigações, como direito dos familiares dos mortos. Para os organizadores e participantes a ação violenta da polícia é considerada inaceitável e estarrecedora, pois, a prioridade das autoridades públicas deve ser a preservação da vida. Quando o governo estadual, combinado com o presidente Bolsonaro, autorizou a entrada violenta de suas forças de segurança nas favelas fortaleceu os mecanismos de opressão, produção do medo e de terror generalizado, utilizados não por regimes democráticos, mas por Estado se Exceção.


E como bem diz Itamar Silva - do Santa Marta nesse trecho do seu texto Chacina do Jacarezinho – pena de morte na favela, publicado no site Portal Favelas, no dia 08/05. https://www.portalfavelas.com/single-post/chacina-do-jacarezinho-pena-de-morte-na-favela.


“...Não podemos esperar nada de Claudio Castro. Sua participação no governo Witzel e agora de braços dados com o governo Bolsonaro, indica que o Rio de Janeiro seguirá aperfeiçoando sua política de morte e as favelas como laboratório da necropolítica”. (Itamar Silva – diretor do grupo ECO.)


Importantes lideranças, atuantes no movimento de favelas, infância e juventude e de mulheres negras, como Monica Cunha, Patrícia Felix e Rute Sales repudiam cotidiana e veementemente essa prática de operações violentas em territórios de favelas e periferias, onde a imensa maioria da população é formada por pessoas negras.

Em seu depoimento, emocionado e emocionante, Rute Sales relembrou o requinte de crueldade empregado nas ações do Estado, que em tese tem o dever de proteger nossas vidas:


“__ A pior coisa foi a crueldade desse Estado. Ele não se contemplou só em matar. Ele teve que estraçalhar, puxar pelos becos, joga dentro dos carros e distribuir os corpos por aí paras as mães terem que procurar... a gente teve que sair procurando, como se nossos filhos fossem bichos. Olha aí para o sofrimento dessas mães... isso é requinte de crueldade”.(Rute Sales da coordenação do Movimento das Mulheres Negras RJ).


Como nos diz Adair Rocha, em seu livro Cidade Cerzida, o cerne da questão é que todas as ações do Estado devam ocorrer dentro dos parâmetros legais em toda Cidade, sem distinção de territórios e bairros.



A Colaboração Negativa da Grande Mídia


O pano de fundo da necropolítica é o racismo e a criminalização da pobreza. Essa visão preconceituosa permanece profundamente enraizada no tecido da nossa sociedade. Precisamos mais do que nunca dos nossos veículos alternativos de comunicação para a disputa da narrativa, ou seja, nesse momento conturbado por que passa a sociedade brasileira é estratégico que valorizemos a comunicação comunitária, participativa, horizontal e dialógica.


Não podemos repetir o erro de cair nos braços da grande mídia como se ela fosse dar conta da nossa demanda. É cultural a cumplicidade da grande mídia na caracterização de favela e periferia como espaços urbanos perigosos e violentos. Idem para seleção entre vítima e criminoso pela perspectiva racial. Infelizmente a imagem das favelas e de seus moradores é estigmatizada por esse setor da comunicação de forma continua.


Cabe ao próprio ativismo social a cobrança de políticas públicas que valorizem a cultura, a capacidade criativa e as potencialidades dos territórios de favelas e periferias. Se temos na internet uma plataforma que dá voz ao povo negro e favelado e aos diversos movimentos sociais que se somam a esse segmento, se sabemos que a grande mídia veicula e perpetua o preconceito racial; creio que nossa principal missão/opção, neste momento, seja o fortalecimento da mídia alternativa e como ferramenta de articulação entre comunicação e os movimentos sociais.


Devemos estar ligados e atentos, pois a mesma mídia perseguidora, excludente e racista, que nos mantém invisíveis em suas páginas positivas, agora quer ser aproximar. Isso é respeito ou desrespeito? Até quando iremos aceitar isso? Precisamos aprofundar o debate a respeito da chamada grande mídia e também sobre a nossa estratégia para disputarmos a narrativa junto à sociedade.


Entendo que a comunicação comunitária tenha um papel relevante na luta contra a exclusão social e como ferramenta de cobrança aos governantes dos devidos investimentos em cultura, saúde, transporte e educação para o Jacarezinho.


126 visualizações