Momento histórico: o primeiro hospício brasileiro é transformado em espaço cultural

Atualizado: Nov 9

Na última semana de outubro, o Instituto Municipal Nise da Silveira, liberou o seu último paciente internado. Foi um momento histórico na luta pelo fim do sistema manicomial. Inaugurado como Hospício Pedro Segundo, primeiro do Brasil e segundo da América Latina, o Instituto Nise da Silveira existe há 110 anos, acaba de fechar definitivamente sua área hospitalar e, agora, se transformará em espaço destinado à cultura, geração de renda e memória.

No Rio de Janeiro ainda existem dois Institutos para internação de pacientes psiquiátricos - Colônia Juliano Moreira e Instituto Municipal Philippe Pinel - que, assim como o Nise, vem desenvolvendo na última década, um trabalho intenso de desinstitucionalização dos pacientes de longa permanência ou no apoio ao fechamento de outros manicômios e que, em breve, passarão por uma reformulação como a que foi feita no Nise da Silveira.

Foto: Pâmela Perez

A transformação do modelo de assistência em Saúde Mental no Brasil, que visa a substituição dos hospitais por uma rede substitutiva de cuidado em serviços territoriais, perto da casa das pessoas, visa a prevenção do sofrimento agudo e evitação das crises ou surtos. Segundo cientistas e profissionais da área, o manicômio é comprovadamente um lugar de mortificação subjetiva, que gera o agravamento da loucura e de transtornos mentais. Além disso, ao invés de lidar com o meio em torno do qual o sujeito está inserido, considerando-o adoecedor, lhe retira da vida e produz segregação.

Aqueles que permanecem longo tempo internados perdem os laços sociais, a possibilidade de trabalho, acesso à cultura e ao lazer. A Rede de Atenção Psicossocial que integra CAPS, Consultórios de Rua, residências terapêuticas e demais serviços do SUS, vem sendo implantados desde os anos 2000 no Brasil, embora o movimento “por uma sociedade sem manicômios" já venha acontecendo desde as décadas de 80, 90.

Em entrevista para o Portal Favelas, a Diretora do Instituto Municipal Nise da Silveira, Érika Silva, disse que o fechamento do manicômio “não é trabalho de uma unidade, é trabalho da cidade, é uma questão ética. Não podemos admitir que pessoas morem em um hospital por serem diferentes, por estarem na rua. Isso é um princípio, e quando a gente toma um princípio pra gente, pra nossa vida, a gente pensa uma posição política de transformar. O manicômio concentra várias coisas que vemos na sociedade, por isso é tão difícil de acabar.”, conta a diretora.

Em 2001, a aprovação da Lei número 10.216, foi o primeiro passo institucional do Estado para a Reforma Psiquiátrica Brasileira, que estabelece a transformação do modelo asilar e define uma série de direitos às pessoas com sofrimento psíquico intenso. Segundo o Ministério da Saúde, os CAPS são unidades para acolhimento às crises em saúde mental, atendimento e reinserção psicosocial de pessoas com transtornos mentais graves e persistentes e/ou com transtornos mentais decorrentes do uso prejudicial de álcool e/ou outras drogas.

Os CAPS oferecem atendimento interdisciplinar, composto por uma equipe multiprofissional que reúne assistentes sociais, psicólogos, enfermeiros, psiquiatras, oficineiros entre outros, em articulação com as demais unidades de Saúde e com unidades de outros setores (educação, assistência social, etc.) quando necessário, sempre incluindo a família e a comunidade nas estratégias de cuidado. A palavra, as soluções criadas por cada um para lidar com seu sofrimento e as relações sociais e familiares fazem parte da direção do trabalho dos CAPS.

O acesso aos CAPS pode ser realizado por demanda espontânea, por intermédio de uma unidade de atenção primária ou especializada, por encaminhamento de uma emergência ou após uma internação clínica/psiquiátrica. Os CAPS funcionam de segunda a sexta, com atendimento das 8h às 17h. Os CAPS III têm funcionamento 24h, durante os sete dias da semana, oferecendo a possibilidade de acolhimento noturno para a clientela já atendida, conforme avaliação da equipe.

Apesar de todos os esforços, a saúde mental ainda está muito ligada ao hospital, como afirma a diretora Erika Silva, que ainda explicou a radicalidade que esses espaços produzem sofrimento:

Um manicômio não tem vida, por isso é um manicômio. Ele tem uma radicalidade; se o tratamento é tão bom então porque as pessoas fogem? Ainda temos a ideia de que a saúde está ligada ao hospital”.

Além disso, relatou também sobre a importância da memória: “Nós não fechamos leito, nós qualificamos. Precisamos estar mais juntos, ter mais recursos. Por isso é importante a população ter esse entendimento, que não peçam mais leitos em hospitais, que peçam mais CAPS. Não é simples por ser algo novo. O Instituto Nise da Silveira vai se tornar um lugar de memória, é importante a clientela poder voltar lá e ver um espaço de cultura”, conta Érika Silva.

A diretora finalizou contando que o Nise está de portas abertas para receber a comunidade e fala sobre a importância dessa aproximação: “estamos abrindo as portas mesmo do Instituto para que a gente possa receber a cidade e que a gente também possa sair para a cidade. Está muito claro para todos nós; manicômio nunca mais! Essa é nossa luta”, finaliza.,







672 visualizações