Procuram-se "Carolinas"

Atualizado: 4 de Set de 2020



Calma. Não há motivos para preocupações e estranhamentos. Este não é o anúncio de desaparecimento de mulheres chamadas Carolina. O assunto é apagamento; mas também é visibilidade. Acredite, trago boas novas. Continuemos e você verá, mas antes deixa só eu contextualizar o tema.


Em muitas famílias negras periféricas, os membros com mais de 30 anos não têm a fotografia como arquivo de memória. Não há o álbum de família como guardião e testemunha das lembranças. Esse tipo de registro é escasso.


A falta de recursos para adquirir uma máquina fotográfica, comprar o filme e pagar a revelação impediu que parte da população negra tivesse a fotografia como suporte de memória, como registro da sua história.


As poucas famílias que possuíam algum acervo fotográfico dificilmente conseguiram mantê-lo como registro para outras gerações. Isso porque os tetos com goteiras e as frequentes enchentes, comuns na vida do negro periférico, acabavam por destruir as fotografias.


São vidas que não possuem o registro imagético do passado. São memórias não arquivadas; logo, não difundidas.


O apagamento da memória da população negra é uma antiga forma de desumanizar. Poucas são as famílias negras que conseguem remontar suas origens. As rotas da escravidão (Portugal, África e Brasil) provocaram a dissolução de famílias, a impossibilidade de relações entre ascendentes e descendentes.


Atentos a isso, a FLUP e o Frontfiles desejam que mulheres negras brasileiras, portuguesas e da África lusófona exibam imagens de suas famílias, acompanhadas de uma breve descrição sobre o momento e as pessoas ali captadas. Essa proposta foi batizada de: "Catação de Imagens: Memórias de uma diáspora negra".


O foco na origem das mulheres que o projeto quer alcançar (Brasil, Portugal e África lusófona) é justificado pela necessidade de recomposição desse "álbum de família" inviabilizado pelo comércio escravista. O porquê do envio das fotografias exclusivamente por mulheres é a homenagem que se pretende fazer à Carolina Maria de Jesus _ escritora que narrou o cotidiano de uma mãe solo-negra-favelada.


Para Conceição Evaristo, Carolina Maria de Jesus (que precisou catar papel para sustentar seus três filhos) catava também palavras para retratar sua existência, registrar suas vivências a partir da escrita. Segundo os idealizadores de "Catação de Imagens: Memórias de uma Diáspora Negra", o objetivo do projeto é que as “carolinas” do presente catem imagens que componham a memória de suas famílias.


A parceria entre a Festa Literária das Periferias (FLUP) e a recém lançada plataforma global de jornalismo independente, Frontfiles, é o encontro de duas formas de representação: a palavra e a fotografia. As duas empresas têm como propósito promover potências ocultadas pela ótica elitista, dar visibilidade a talentos periféricos. Logo, possibilitar que outras narrativas possam ser exibidas é um ato político coerente com os princípios que as norteiam.


Para cumprir esse fim, a FLUP e o Frontfiles convidaram o coletivo negro de fotografia e colagens, Afrotometria, para assinar a curadoria. Serão selecionadas 60 imagens para a composição da cenografia dos painéis sobre anti