Feijão com justiça agita o domingo no Jacarezinho

Liderança comunitária e militante dos direitos humanos, Rumba Gabriel um dos fundadores do Portal Favelas, reuniu neste domingo (03) dezenas de amigos e amigas no Boteco Quilombo Jacaré , com muito samba , comida de boteco e Axé para comemorar seu aniversário.


Este domingo na favela foi um dia diferente para o jornalista Rumba que recebeu a todos com uma feijoada preparada por amigos, liderados por sua companheira Regina. A maioria ali era de pessoas da própria favela, amigos da vida e do samba, além de outros companheiros do Portal Favela e representantes do MST, parceiro de tantas ações contra a fome na favela.

O feijão com justiça teve samba e batucada fazendo esquecer por uns bons momentos o abandono da favela pelo atual governo do estado que ocupa o território com militares, impõe o medo e abandona as políticas públicas.


Imergindo em suas origens , Rumba Gabriel é nascido na Comunidade do Jacarezinho , chamada gentilmente de Quilombo Jacaré , por concentrar o maior número de negros do Rio de Janeiro. O ativista é jornalista , teólogo , formando em Direito , compositor da escola de Samba Estação Primeira de Mangueira e Escola de Samba Unidos do Jacarezinho, onde foi Presidente eleito democraticamente duas vezes.


Como a grande figura aniversariante do Jacarezinho conta , “ minha militância começou bem cedo, quando eu tinha 15 anos de idade, quase levei um tiro no peito , quase morri por evitar uma senhora ser assaltada. Na sequência fui para o exército , onde encontrei ali presos políticos , passei a ajudá-los. Já começava a entender o que era política no período da ditadura , onde o Presidente foi um dos mais cruéis dessa fase , o Garrastazu Médici . Nós o chamávamos de “Carrasco Azul Médici” . Comecei a ajudar os presos políticos levando para eles alimentos do rancho, passei a dormir mais no quartel para poder invadir o rancho e pegar as coisas boas de comer como , frutas , carnes e legumes para levar aos presos políticos . Até que um dia que eu fui preso por me pegarem no flagrante , comecei assim” .

Ainda sobre sua trajetória dentro da militância , Rumba Gabriel prossegue , “ no Jacarezinho tinha um aparelho onde se reuniam aqueles que combatiam a ditadura. Boaventura grande Boaventura nesse período morou aqui no Jacarezinho. Junto com ele, Irineu Guimarães e Nilson Vicente de Brito Santinho . Irineu ajudou a fundar o MR8 ( Movimento Revolucionário 8 de Outubro ) . Tinha o Gilvan também, que na época era amigo do Brizola. Eu cresci assim , assim que o Brizola voltou do exílio , fui eu que o recebi , no jornal do Brasil onde eu trabalhava , pois trabalhava no gabinete do dono do Jornal do Brasil , que era o Doutor Manoel Francisco Nascimento Britto , genro da senhora Condessa Pereira Carneiro . Ali conheci pessoalmente o Brizola , a gente não se perdeu mais de vista , na sequência ele ganhou a eleição e fui trabalhar com ele . Naquela oportunidade fiquei com Carlos Alberto de Oliveira dos Santos , o Caó , grande militante negro , ativista , firme , autor da Lei 7716 ( define crime o preconceito de raça ou de cor ) . Trabalhei também com Abdias Nascimento , Lélia Gonzalez , é uma história muito interessante , fui crescendo assim” .


Eu sempre lutei pela cultura , por conta de meu pai que era amigo de compositor , amigo de Cartola , Nelson Cavaquinho , Zeket , Carlos Cachaça e por isso eu também acabei como compositor . Escrevi dois livros , um é o Gotas de Gira , prefaciada por Carlos Drumond de Andrade , o qual eu fui mensageiro, e o Zé favela , prefaciado pelo saudoso Carlos Nobrega , também jornalista negro “ .


O aniversariante também conta que foi a luta com a Cultura , mas devido a insegurança pública , teve que trabalhar contra a corrupção policial , o que tem feito até hoje . Por isso está na Comissão de Direitos Humanos da ALERJ e também na Associação Brasileira de Imprensa ( ABI ) . Fundou o Movimento Popular de Favelas , Portal Favelas , a Primeira Cooperativa do Jacarezinho . Dentro deste contexto de insegurança, Rumba também conta , “ hoje me encontro no Programa de Proteção dos Direitos Humanos , pois querem me pegar de qualquer maneira como fizeram com Marielly , por conta do meu combativismo“ .

Palco dessa grande confraternização, o Boteco Quilombo Jacaré dispõe de uma grande variedade da rica comida afro-brasileira, como feijoada , carne seca com abóbora , muquecas , galos com batata ou macarrão , caldos , caranguejo , siri , pé de galinha , pescoço , jiló , torresmo , chouriço entre outros.

Além de ser simbolicamente conhecido como o maior ponto de comida de boteco da favela Jacarezinho , ele também tem se tornado a cada dia , ponto de cultura , política e da Comunicação Comunitária .


Inaugurado em Fevereiro deste ano , o Bar faz parte de um projeto idealizado pelo Rumba , dono do estabelecimento . Segundo ele , nas favelas as pessoas infelizmente não tem uma consciência política e nem a preservação de sua identidade, a maioria das pessoas da comunidade são negras . Por isso , a intenção do projeto é fazer com que as pessoas frequentem o bar , se ambientalizando com comidas típicas da cultura afro-brasileira , escutem suas músicas como o samba , tenham contato com a velha guarda , batam um papo , discutam política e saiam satisfeitas. No bar o ativista promove reuniões com a defensoria pública , procuradores da república , desembargadores como Ciro Darlan , grupo de direitos humanos da AOB , ABI , ALERJ , movimentos sociais como a FAFERJ ,Setores de Favelas do PSOL e do PT . No bar, o ativista criou o Favelas pela Democracia e quase conseguiu colocar o Haddad lá na última eleição . Como a grande figura do Jacarezinho conta , sempre começam com um samba para depois irem para a política , pois o bar é para isso.






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