Favela recebe apoio de consagrado sociólogo portugues

Atualizado: 25 de jan.

O sociólogo português Boaventura Sousa Santos é um dos intelectuais mais produtivos e criativos da atualidade. Sua ampla produção acadêmica, assim como sua militância e diálogo com movimentos sociais de diferentes partes do mundo, expressam seus múltiplos interesses e focos de pesquisa.

Ele enviou às lideranças comunitárias do Jacarezinho um depoimento em vídeo declarando sua solidariedade neste momento de ocupação policial. Ele diz que a favela “precisa de proteção social, precisa de escolas, de espaços de lazer, de desporto, de infraestrutura de atendimento de saúde, de muitas atividades culturais; sim precisa dessa ajuda, mas não precisa de um estado repressivo. O vídeo de Boaventura antecipa a campanha que será realizada pelo grupo Psicanalistas Unidos pela Democracia (PUD), que está recolhendo uma série de depoimentos de personalidades, profissionais da área de saúde, jornalistas e amigos da favela, preocupados com a situação crítica por que passam os moradores do Jacarezinho.

Boaventura Santos morou no Jacarezinho na década de 70 e sua vivência na favela resultou do trabalho de campo para sua tese de doutorado, publicada pela primeira vez em português em 2015 (Direito dos Oprimidos, Almedina), considerada um marco fundamental na sociologia do direito mundial.


TRANSCRIÇÃO

Meu nome é Boaventura de Sousa Santos. Quando as pessoas me perguntam de onde eu sou eu digo: sou português, mas realmente eu sou do jacarezinho. Desde que em mil novecentos e setenta vivi alguns meses no Jacarezinho a preparar meus trabalhos acadêmicos, o Jacarezinho ficou para sempre no meu coração e eu passei a sentir-me sempre que sou alguém do jacarezinho. E é por isso que me dói tudo aquilo que acontece que fere que mata que martiriza que excluí os meus companheiros e companheiras os meus amigos e as minhas amigas de Jacarezinho.
Em maio do ano passado a Polícia Militar, numa composição de vários tipos de polícia, ocuparam a favela e causaram um massacre que foi condenado internacionalmente, circulou por todas as televisões como um dos massacres mais violentos contra uma população civil inocente. Pois bem, em vinte de janeiro a polícia voltou ao jacarezinho a uma ocupação. A intenção disfarçada é de proteção e equidade. Mas nós do Jacarezinho sabemos que isso é um disfarce; talvez neste ano com objetivos eleitoralistas.
Realmente o Jacarezinho precisa de proteção social, precisa de escolas, de espaços de lazer, de desporto, de infraestrutura de atendimento de saúde, de muitas atividades culturais; sim precisa dessa ajuda, mas não precisa de um estado repressivo onde facções diferentes de atores ilegais em luta entre si e em luta com a cumplicidade do estado martirizem a população inocente, que é, obviamente, a população do Jacarezinho na sua esmagadora maioria. E é essa que morre. É essa que é ferida. É essa que fica no estigma dessas crianças que veem a violência como o seu horizonte de vida.
Por isso eu espero que desta vez o massacre não se concretize e que o Estado abandone essa ideia de que as favelas são carne para canhão para aproveitar nos tempos eleitorais que é sempre um objetivo instrumental repressivo e de desprezo por essa população nobre, digna, que vive em condições indignas mas que se recusa a perder a sua dignidade. A todos vós no Jacarezinho quero-vos dizer estou convosco e sempre estarei convosco. Um grande abraço solidário.
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