DE QUARTO DE DESPEJO A SOLUÇÕES SANITÁRIAS

Atualizado: 9 de Abr de 2020



Foto: Maurício Hora



É comum encontrarmos em textos que se dedicam à favela definições como: “local de proliferação de doenças”, “avessa a toda e qualquer regra de higiene”, “infestação avassaladora”, “cancros sociais”. Essas visões higienistas acompanham esse território desde seu surgimento.


Afinal, um dos seus marcos de origem é o “bota abaixo” dos cortiços do centro da cidade - gênese da representação física da favela. Em 1893, o Cabeça de Porco, maior cortiço do Rio de Janeiro foi demolido. Barata Ribeiro era o prefeito na época. Professor da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, cuja tese de doutorado tinha o título “Quais as medidas necessárias devem ser aconselhadas para impedir o desenvolvimento e propagação da febre amarela na cidade do Rio de Janeiro”, percebia os cortiços como fontes de miasmas e foco de infecções. Logo, acabar com o Cabeça de Porco representava limpar a cidade dessa presença anti-higiênica.


Segundo alguns estudiosos, foi com as sobras das madeiras demolidas do Cabeça de Porco que moradores construíram os primeiros barracos no Morro da Favela, hoje Morro da Providência. Ora, se o prefeito sanitarista desejou extirpar o pobre e o seu local de habitação como medida de saúde pública, hoje a favela que deu origem a todas as outras cria soluções higiênicas para o combate ao Coronavírus.


É do Morro da Providência, primeira favela, a iniciativa de colocar bicas d´água em diversas áreas da comunidade para que os moradores possam fazer a higienização das mãos. A ideia surgiu quando Alessandra Roque, que fabrica sabões, pensou em doá-los aos seus vizinhos. Ocorre que as crianças, ainda que tivessem esse item de higiene em casa, permaneciam brincando pelas vielas. Uma forma de minimizar a proliferação da COVID -19 na favela foi disponibilizar a essas crianças o acesso à água ao ar livre. E, é claro, que as crianças não são as únicas beneficiadas, todos que precisam transitar pela localidade fazem uso das bicas públicas. Alessandra e o líder comunitário e fotógrafo Maurício Hora instalaram quatro bicas pelo Morro da Providência e pretendem multiplicá-las pela favela. Faltam recursos para isso. As quatro primeiras foram custeadas pela dupla que não tem meios financeiros para expandir a ação.

A instalação de bicas comunitárias em favelas não chega a ser uma novidade. O abastecimento de água em territórios periféricos costuma ser deficiente. Logo, o uso coletivo é uma forma de diminuir a escassez (essa prática já era comum, inclusive, nos cortiços). Na década de 1980, a CEDAE espalhou bicas similares em diversas favelas. Maurício Hora diz ter se lembrado dessa época ao ver crianças utilizando a primeira bica instalada por ele e Alessandra. Mas, também é preciso lembrar que, ainda hoje, em vários territórios periféricos, o abastecimento de água é precário. Famílias passam dias sem uma gota na torneira. Na providência, o fornecimento de água ocorre em dias alternados. Isso faz com que alguns moradores sintam receio de que o uso coletivo prejudique o abastecimento das caixas d´águas das casas. Atentos a isso, os idealizadores instalarão as próximas bicas em pontos de distribuição de água para a favela.

Foto: Maurício Hora


Outra inciativa sanitarista local foi desenvolvida no morro do Santa Marta _ primeira favela a sofrer a “higienização