De 100 estudantes da Cidade de Deus, mais de 95 foram prejudicados pela pandemia, revela estudo

Um levantamento realizado pelo Coletivo Construindo em parceria com a Universidade de Tufts Massachusetts, dos Estados Unidos, revela que cerca de 97% dos jovens que moram na Cidade de Deus, favela do Rio de Janeiro, tiveram seus estudos prejudicados pela pandemia causada pelo Covid-19. Os pais explicam ainda que as crianças estudaram bem menos do que os anos anteriores.

Com a crise sanitária, muitas crianças foram afetadas, mas principalmente moradores de favela, isso porque o acesso à tecnologia e internet de qualidade se tornaram elementos essenciais para assistir as aulas. Com escolas fechadas, a única maneira de continuar o ensino foi através de videoaulas, e conteúdos enviados através da web.


Foto: Divulgação/Prefeitura do Rio de Janeiro

Em muitas casas, existe apenas um computador, ou seja, os jovens precisam de revezar para estudar. Segundo dados revelados, 31% das crianças da cidade de Deus, não estudaram durante a pandemia. Somente em outubro de 2021, as aulas voltaram de forma presencial. Desde março de 2020, elas estavam de forma remota ou hibrida, ou seja, de maneira totalmente virtual ou apenas parte dela presencial. Bruna Gabriella, moradora da favela de triagem, falou sobre a dificuldade de se estudar de forma virtual “Estudar em meio a pandemia foi muito diferente, e estranho ao mesmo tempo, pois era pouco tempo para se adaptar. Nunca passamos por isso antes. Do nada tudo virou online, e não foi fácil. Eu não tenho computador, tive que fazer tudo pelo celular. Ainda não temos suporte para fazermos tudo assim, sem sair de casa”, conta.

Além disso, a evasão escolar também foi uma realidade. Muitos jovens e crianças abandonaram os estudos. 12% dos adolescentes deixaram a escola durante a pandemia. Muitos relataram que esse fato se deu porque tiveram que trabalhar para ajudar no sustento de casa.

Uma pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, em 2020, dos 50 milhões de entrevistados, com idade entre 14 e 29 anos, 20% não tinham concluído alguma etapa da educação básica. A grande maioria dessa porcentagem, eram pessoas pretas e pardas. O motivo seria por gravidez no caso das mulheres, ou/e porque precisavam trabalhar. O estudo aponta ainda que o Brasil tem cerca de 11 milhões de analfabetos.

No Brasil, o acesso à internet ainda é precário, principalmente nas favelas, onde linhas de telefonia costumam não chagar e as desigualdades sociais falam mais alto. 84% dos entrevistados, afirmaram que as crianças precisam de reforços escolares para recuperarem o que foi perdido em todo esse período.



*Sobre o Coletivo Construindo Juntos

O Coletivo de Pesquisa Construindo Juntos, foi fundado em 2019, na Cidade de Deus, com o objetivo de trazer voz e a legitimidade ao saber periférico, o conhecimento e as formas de ver o mundo de pessoas de periferias e urbanas. Todas as pesquisas são feitas com a participação de lideranças e moradores de favela.


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