Chacina do Jacarezinho: Pena de morte na favela

Atualizado: Mai 12

Por Itamar Silva


Até o momento em que escrevo este texto, 16 pessoas haviam sido reconhecidas no Instituto Médico Legal, vítima da maior chacina já ocorrida no Rio de Janeiro. O dia 06 de maio ficará na história desta cidade como evidência da atuação arbitrária e extremamente letal da policia nas favelas do Rio.

Sob o comando da polícia civil e apoio da PM, 27 pessoas foram assassinadas no Jacarezinho, favela da zona norte da cidade, onde vivem aproximadamente quarenta mil pessoas. As circunstâncias e os depoimentos de moradores não deixam dúvidas de que houve uma chacina naquele local: “muitos se entregaram e foram assassinados”. “A polícia matou pessoas dentro de casa”. “Os corpos foram levados para o hospital sem vida”. “Banho de sangue”, como disse Patrícia Felix, representante da comissão de Direitos Humanos da OAB.


Raí, Romulo, Maurício, Jhonatan, John, Richard, Francisco, Toni, Isaac, Cleiton, Natan, tinham entre 18 e 30 anos de idade. Wagner, Márcio, Jonas, Marlon e Carlos, tinham entre 31 e 43 anos. Ainda não foram divulgados os outros nomes das vítimas. Também morreu o policial civil, André Frias.


A cobertura da mídia destacou, ao longo do dia, a fala dos delegados: Felipe Cury e do Subsecretário Operacional da Polícia Civil, Rodrigo Oliveira que, em entrevista coletiva, de maneira didática, justificaram a operação. Afirmaram que a operação seguiu todos os protocolos e foi resultado de dez meses de planejamento. Destacaram que era preciso agir porque o tráfico de drogas estava aliciando menores e, também, era necessário garantir o direito de ir e vir das pessoas, inclusive, o direito de namorar quem desejar. E sublinharam que a única execução que houve foi a do policial André.


Uma fala calma e didática que distrai o cinismo, o deboche e a arrogância que constrói a narrativa desses policiais. Nenhum dos argumentos apresentados justificaria uma ação tão desastrosa. Concordo com a pesquisadora Julita Lemgruber quando diz que: “a polícia do Rio de Janeiro quer convencer os “cidadãos de bens” que trabalham em nome de sua segurança”. Mas em nenhum momento foi levado em consideração à segurança dos moradores da favela do Jacarezinho e arredores. Operação mal planejada.


No entanto, o governador do Rio de Janeiro se colocou, incondicionalmente, ao lado da polícia e chamou o maior massacre da história do estado como “trabalho de inteligência”: corpos no chão, poças de sangue, invasão de casas, celulares confiscados. Não podemos esperar nada de Claudio Castro. Sua participação no governo Witzel e agora de braços dados com o governo Bolsonaro, indica que o Rio de Janeiro seguirá aperfeiçoando sua política de morte e as favelas como laboratório da necropolítica.


Itamar Silva

Presidente Grupo Eco – Favela Santa Marta


Redação - nota de atualização:

A polícia Civil do Rio de Janeiro informou neste sábado (8) que subiu para 29 o número de mortos na operação realizada no Jacarezinho, na zona norte da capital fluminense, na última quinta-feira (6).

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