A Todos “Zé do Caroço” do Brasil



Texto dedicado aos amigos Deley, Buba e Monique.


Se um dia me pedirem para fazer uma lista de três ou cinco músicas que tiveram as melhores releituras e/ou interpretações, no topo da minha lista estaria a versão de “Zé do Caroço”, do Seu Jorge. Nem sei dizer quais outras músicas a acompanhariam. Mas que ela estaria lá, e em primeiro lugar, estaria. Acho, particularmente, a versão voz e violão do Seu Jorge tão emocionante, com tanta potência e interpretação tão ímpar que chego a pensar em cometer a heresia de dizer que esta versão é melhor do que a original, da incrível Leci Brandão. Por pouco que não cometo essa heresia. Por muito pouco.

O clássico de Leci foi inspirado numa figura real: José Mendes da Silva — o Zé do Caroço -, nordestino que veio para o Rio de Janeiro e morou em Vila Isabel, especificamente no Morro do Pau da Bandeira. Ele se notabilizou por dar notícias e fazer outros serviços através de um alto-falante que colocara em cima de sua casa, tornando-se referência entre os moradores do morro. A música chegou a ser censurada pela então gravadora de Leci, mas a cantora reincidiu o contrato e lançou a música em uma outra gravadora, sendo um sucesso, regravada posteriormente por artistas como Mariana Aydar, o grupo Revelação e Seu Jorge. Essa música é uma síntese da luta diária de tantas e tantos moradores de favelas que, anonimamente, trabalham em prol de sua comunidade, incansáveis, dispostos a correr riscos para proteger o lugar onde moram. São trajetórias que servem de inspiração para qualquer pessoa que tenha sede e fome de justiça social.



Mas não podemos pensar que se inspirar nestes exemplos é o bastante.

Em tempos tão estranhos e sombrios como o que vivemos agora, rezo todos os dias para que essas pessoas também possam ter a oportunidade de agradecer aos céus por mais um dia vivido. É uma das poucas coisas que peço, humildemente. Lutar por direitos é um crime muitas vezes passível de pena capital no Brasil. É uma lei que, embora não escrita, é vivida na pele. Isso sem contar com o fato de conviver com o medo, com as ameaças, com a incompreensão dos seus e a arrogância dos white savior. Não é fácil. Mas quem é de luta sempre estará aonde for preciso para ajudar.

Por exemplo, quando Duda morreu naquele fatídico 30/03/2017 na E.M Daniel Piza, uma das primeiras pessoas a abraçar a escola foi o amigo Deley de Acari. E outras pessoas da região (e de fora dela) disponibilizaram um pouquinho do seu tempo para perguntar como poderiam ajudar a comunidade escolar a superar episódio tão brutal. Deley promoveu, comigo e com a minha amiga Gisela, saraus de poesia. Outros promoveram oficinas diversas. Outros nos chamaram para falar em outros espaços (como a televisão, ou eventos voltados à educação ou aos Direitos Humanos), ou em outras comunidades com os mesmos problemas da Pedreira — e que compartilham o temor de ocorrer tragédia igual a que aconteceu conosco. Outros ajudaram bastante com palavras amigas. Em comum, a solidariedade e a vontade de fazer algo pelo próximo, sem pedir nada em troca. Porque essa é a coisa certa a se fazer. Sem politicagem. Sem dinheiro. Nada.

Estamos prestes a completar três anos da morte da Duda.

Pouca coisa mudou ao redor da escola, assim como o contexto em que ela se insere.

Entristece o fato de que nossa sociedade tem fetiche em demonizar quem se mobiliza para pedir o mínimo de dignidade para o próximo. Amar o próximo é um dos Dez Testamentos e as pessoas o esquecem para diminuir, ridicularizar, incriminar o outro. Numa sociedade que tantos saem gritando aos quatro ventos que seguem a palavra de Deus, e que Deus é amor, é justiça, é compaixão, misericórdia, por que fazem o oposto do que dizem ser A Palavra? Estaríamos perdendo o bom senso? Será que já o tivemos, a ponto de achar isso tão absurdo?

Não sei.

(E nem sei se isso vai mudar enquanto eu viver, infelizmente. Essa cebola tem um bocado de camadas e não serei eu que vou descascar ela a essa altura do campeonato. Tente a sorte por sua conta e risco)

Mas sei que sempre existirão pessoas que terão a coragem que não tenho e que queria muito ter, ao dedicar esforço, saúde, vida por um mundo mais justo pros seus. São essas pessoas que constroem a resistência, o tão cantado em verso e prosa — e pouco feito — pela esquerda institucional “trabalho de base” e não tem tempo de se meter em discussão desnecessária pelas redes porque tem coisa muito mais importante e urgente pra fazer pelos outros, por quem precisa. E fazem, com a gente sabendo ou não. Contando com apoio ou não.

Que todas as pessoas, que todos os coletivos, de todas as lutas sintam-se abraçados por essas palavras que saem do fundo do meu coração. Que vocês tenham cada vez mais força, coragem, apoio, carinho e que Deus os proteja. Precisamos amplificar a voz desse Zé do Caroço que há em cada um de vocês. É mais do que necessário.

REFERÊNCIAS:

“A verdadeira história do samba “Zé do Caroço” — https://www.diariodaregiao.com.br/_conteudo/2018/11/secoes/blogs/preto_no_branco/1131086-a-verdadeira-historia-do-samba-ze-do-caroco.html

“Zé do Caroço: O Samba Político de Leci Brandão” — https://raizdosambaemfoco.wordpress.com/2017/08/15/ze-do-caroco-o-samba-politico-de-leci-brandao/

DOC “Zé do Caroço — A Voz do Pau da Bandeira” — https://www.youtube.com/watch?v=-pLmqbsRH-M

“Seu Jorge — Zé do Caroço” — https://www.youtube.com/watch?v=pGvRxC6WK5k


FONTE: https://medium.com/um-blog-de-nada/a-todos-zé-do-caroço-do-brasil-3a4e1b06ed3d

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