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A arte da resistência: Luta por justiça climática inspira artistas indígenas, quilombolas e periféri

Em reportagem ao Nonada Jornalismo a Banda Toró, formada por quilombolas, falam sobre suas letras que trazem a história dos seus ancestrais e fatos cotidianos do quilombo do Abacate


Acesse a matéria na íntegra: : https://www.nonada.com.br/2023/01/a-arte-da-resistencia-luta-por-justica-climatica-inspira-artistas-indigenas-quilombolas-e-perifericos/





Belém e Ananindeua (PA), e Nioaque (MS) – Os efeitos da crise climática podem ser sentidos em territórios distintos por todo o mundo. Com esse fenômeno surgiu o movimento da justiça (ou injustiça) climática, que busca a divisão mais justa dos investimentos e responsabilidades no combate a essa crise. Nesse sentido, os povos e populações tradicionais são os maiores aliados, mas a luta pode ser expressa de muitas formas, e a arte é uma delas.


Do município de Ananindeua, no Pará, à periferia da capital, Belém, ao Nioaque, no Mato Grosso do Sul, foi na música e na pintura que artistas decidiram expressar as violações contra seus territórios.


Em Ananindeua, município que integra a região metropolitana de Belém, a Banda Toró Açu, formada por quilombolas, traz em suas letras a história dos seus ancestrais e fatos cotidianos do quilombo do Abacatal. A música “O caminho das pedras”, por exemplo, entoa: Andando por um caminho/ essas pedras retratam os meus ancestrais/ angústia já esteve aqui impedindo/ nós negros de poder sorrir.


O quilombo do Abacatal nasceu, como diz a música, a partir de um caminho feito de pedras e sua origem data do século 18. O local ligava a margem do igarapé Uriboquinha até a sede da fazenda do Conde Coma de Melo. O artigo científico elaborado pelas pesquisadoras Helena do Socorro Campos da Rocha; Cristiane Elaine dos Santos Brito da Silva; Elizabeth Alves da Cunha; e Wal Khristian Pereira Braz da Silva Junior encontrou provas da escravidão negra na Comunidade Quilombola do Abacatal.



“(…) O caminho das Pedras, local este que era de difícil acesso, e por isso os escravos construíram um caminho de pedras, para facilitar a chegada do conde até as margens do rio. Este caminho se mantém existente até a atualidade; a árvore genealógica da comunidade; e os relatos orais de um dos descendentes do Conde Coma de Mello e da escrava Olímpia”, diz trecho do artigo.


Para Paulo Otas, cantor, compositor e membro da Banda Toró Açu, falar do território por meio da arte é importante para que nunca esqueçam os 312 anos de ancestralidade, resistência e espiritualidade da Comunidade do Abacatal. “Nós jovens sentimos como missão de vida levar nossas histórias e nossa resistência, ensinada pelos nossos ancestrais, para o mais distante e para o maior número de pessoas possíveis, para que sejamos respeitados como o nosso quilombo merece”.


O artista é neto do Abacatal. Nascido no município de Ananindeua, a relação com o território é fruto de um conselho do avô. “Ele sempre falava para minha mãe, que lá fora [na cidade] não era bom para nós, e que não existe lugar melhor pra criar filho do que aqui no Abacatal”, lembra. Acolhendo o conselho do avô Francisco, a mãe de Paulo mudou-se para a comunidade quilombola.


Em 2016, Paulo e outros quilombolas fundaram a Toró Açu. As canções unem carimbó, lundu, barravento, entre outros tambores e atualmente é formado por cinco integrantes: Melina Maia, vocalista; David Maia, contrabaixo; Rafa Chagas, baterista; Bia Flor de Maracujá, percussão; Vic Ykamiaba, percussão.


Os artistas também denunciam os efeitos das mudanças climáticas. É o caso da canção sobre o rio Aracanga, que leva o mesmo nome do rio. Segundo os quilombolas, a luta é constante na reivindicação junto ao poder público em busca de saneamento básico e pelo fim do lançamento sem tratamento adequado de esgoto sanitário dos condomínios do programa “Minha Casa, Minha Vida”, construídos ao redor do quilombo. Diariamente, o esgoto contamina o solo e rios que banham a comunidade. Outro enfrentamento é pelo fim dos resíduos de construções que escorrem para os igarapés Aracanga e Uriboquinha, fontes de banho, pescarias, subsistência e de lazer para a comunidade.


Quem te viu quem te vê/ Quem banhou não banha mais/ E quem pescou não pesca mais/ Eu vi o tal progresso aos poucos sufocar/ Teu leito, tua beleza aos poucos se acabar”


A resistência da comunidade ganha força nos eventos culturais, como o Festival do Açaí, Amostra Cultural de Arte e Resistência Quilombola e o Festival do Licor. Neles, são debatidos assuntos sobre mudanças climáticas, mineração, a derrubada das florestas e poluição dos rios, que segundo os moradores são os maiores impactos dentro do território.


“É perceptível a mudança climática no quilombo, com as derrubadas das florestas em volta do quilombo para construção de condomínios e a instalação do aterro sanitário em Marituba, município vizinho, que polui nosso ar e rios. Sentimos dificuldades de respirar, por conta do forte odor vindo do lixão, sentimos também dificuldade na pesca, uma das principais formas de sobrevivência de muitas pessoas no quilombo”, alerta Paulo Otas.


Nascida e criada no Abacatal, Maria Santana da Costa, 54 anos, narra de forma muito transparente os impactos no seu território. “Antes tinha muita caça, muito peixe, açaí, coisa que hoje quase não tem mais. Antes a gente usava água do rio para beber e tomar banho, mas hoje isso não é mais possível porque a coloração da água mudou”, lamenta.


“Hoje a gente planta, mas não dá mais. As frutas diminuíram. Antes dava muita pupunha, hoje dá bem pouco. Mandioca não se dá como dava antes. A gente planta uma rosa e no lugar nasce mato; não dá mandioca, o próprio açaí não tem mais como antes. Na minha infância, tive o privilégio de ter tudo natural, mas o ‘progresso’ vem crescendo e a poluição também. Acho que hoje as frutas que davam, não nascem mais por conta da poluição do solo e do ar”.


Do quilombo para a periferia


A resistência do povo da periferia de Belém, no Pará, é diária. No bairro da Sacramenta também há luta por saneamento básico, condições de vida mais dignas, por transporte, por oportunidades de trabalho. Nascido como um projeto que inclui diversas formas de arte, a Associação Cultural Iaçá leva arte e cultura para Belém há 25 anos. O projeto concentra as atividades nos bairros da Sacramenta, Pedreira e Telégrafo.


Rosa de Oliveira, idealizadora do corredor e criadora do projeto conta que a associação tem quatro frentes: os Curumins, que são crianças que participam de oficinas de dança, artes e cantos; o Jóias Iaçá, composto por jovens e adolescentes que fazem aulas de dança e teatro; e o Flor da Idade, que leva dança a senhores e senhoras com mais de 60 anos que se apresentam pela cidade.


O Grupo Iaçá foi criado por Rosa de Oliveira em 1997 e, ao longo desse tempo, tem se consolidado como identidade cultural ativa na cidade. Marcos Vinicius Fontes, mais conhecido como Marquinhos, coordenador musical do Iaçá, afirma que as pautas ambientais, e lutas do território são sempre retratadas em suas canções, que falam de regionalidade, lendas, meio ambiente e territorialidade. “O Içá tem uma estrutura de debate muito forte ligado ao meio ambiente, por isso que a gente trabalha com os mitos, com as lendas. A nossa música fala de caboclo, fala de rio, de visagem, de seres da mata, da chuva, de Iaci, de Jaci”, afirma.


O próximo CD do Grupo Iaçá está em fase de produção e traz o título Batuque de todas as rodas, pregando o tema da diversidade. “Somos o grupo da diversidade de amigos, amigas, amigues. A gente leva também essa pauta social e defende a igualdade de gênero e trabalhamos projetos que colocam a mulher como agente de mudança e de transformação”, diz Marquinhos.


Para Dircélia Moraes, coordenadora de produção cultural do grupo Iaçá, resistir e manter a cultura popular viva é um desafio. “Essas atividades artísticas são ferramentas de reflexão e intervenção sobre a realidade, nesse sentido são importantes no espaço da periferia, pois auxiliam no processo de transformação social”. Hoje, o Iaçá faz diversas apresentações levando cultura, reflexão sobre o meio ambiente e a Amazônia, possibilitando conscientização ambiental a partir do protagonismo da periferia.


Outras formas de arte


Se de um lado a música denuncia por meio dos sons, de outro os pincéis dão forma às desigualdades. É isso que faz o indígena do povo Terena Libencio Lourenço, de 49 anos, mais conhecido como Kuka, que reside em Nioaque (MS). O indígena usa suas telas e talento para denunciar a devastação no Pantanal.


A tela de maior sucesso feita por ele ganhou destaque em 2020 no auge da pandemia de Covid-19, quando fazendeiros aproveitaram a crise de saúde pública para atear fogo tanto no bioma pantaneiro quanto na Amazônia. A tela denominada “O protetor”, mostra uma criança indígena rodeada por animais da fauna pantaneira como tucano, onça-pintada, arara e o tuiuiú, enquanto no fundo da imagem a natureza arde em chamas.


De acordo com Kuka, a tela foi produzida para ser inscrita em um edital de incentivo aos artistas de Mato Grosso do Sul justamente por conta da pandemia da Covid-19. Entretanto, por conta de entraves burocráticos, o artista não conseguiu realizar sua inscrição a tempo.


Mas ao postar uma foto da arte nas redes sociais, houve uma grande surpresa: 10 mil compartilhamentos em três dias. “Fiquei feliz com a repercussão. É sinal de que muitas pessoas querem proteger o Pantanal e foi justamente na época daqueles grandes incêndios”, recorda. O pintor ainda conta que a criança retratada na obra é seu sobrinho, Thomaz Valentin, que tinha três anos de idade à época. “É uma criança que tem que crescer tendo a visão de que é preciso denunciar o desmatamento”, afirma.


Além do sobrinho, outras crianças também foram afetadas de forma positiva com a arte, já que, segundo o próprio artista, muitos professores usaram imagens da pintura para servir como base em tarefas de educação ambiental passadas durante as aulas. O sucesso da tela fez com que um vereador de Miranda, cidade também no interior de Mato Grosso do Sul, levasse Kuka para pintar uma réplica do quadro para ficar exposta na Câmara Municipal da cidade e fazer parte do acervo permanente da Casa de Leis.


“O Presidente da Câmara era Terena também e chamou artistas da região que falavam sobre o Pantanal para que mostrassem suas artes. Ganhei uma moção de aplausos e agora a tela faz parte do acervo da Câmara Municipal de lá”, conta. Kuka ainda recorda que seu sonho desde menino era trabalhar e viver da arte e ser reconhecido como pintor, algo que hoje em dia é realidade, principalmente depois da repercussão da sua obra. No entanto, ele reforça que muito além do reconhecimento, seu trabalho também é feito com o intuito de mostrar para cada vez mais pessoas que é preciso pensar na preservação da floresta.


“Os indígenas são os que mais lutam pela floresta e por meio da arte eu pude mostrar que é preciso preservar. Se eu pintar uma arara, por exemplo, as pessoas estarão vendo que é preciso preservar. Daqui um tempo vamos ver os animais apenas nas telas”, crítica. Hoje, Kuka também trabalha como artesão, escultor e tatuador, sendo que, segundo ele, o último ofício é que lhe dá mais condições financeiras de viver, apesar de ele sonhar em viver, apenas, como artista plástico em um futuro próximo.


“Onde vou, levo meus materiais, se eu tivesse mais apoio viajaria para levar minhas pinturas para outros lugares. Prefiro viver da arte, que é mais importante que ganhar dinheiro. Tenho vontade de ir para as aldeias para conhecer outras culturas independente de etnia”, afirma, enquanto já emenda dizendo que é um indígena citadino por viver na cidade a vida toda e não ter muito contato com a cultura terena.


“Fui criado na cidade e perdi um pouco da tradição do idioma terena porque quando eu tinha um ano saímos de Aquidauana (MS), onde eu nasci, e viemos para a cidade. Não deixamos de falar sobre a cultura indígena, palavras simples e ainda sabemos algumas coisas, mas é pouco”, explica.


Por fim, Kuka afirma que um dos caminhos para a preservação da natureza é eleger mais políticos indígenas, porque são pessoas que sabem viver em harmonia com meio ambiente, já que agora está sendo tudo tomado pelas plantações do agronegócio. “Aqui está ficando pequeno e estão querendo pegar as terras indígenas, não dou muita opinião sobre isso porque não moro na aldeia, mas nós indígenas sabemos como preservar a floresta. Sabemos que na aldeia tem o espaço para morar e plantar precisa de autorização se for preciso tirar uma árvore, por exemplo, e não pode levar nada para fora da aldeia”, conclui.



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