6 meses da chacina do Jacarezinho

A maior chacina do Rio de Janeiro, completa 6 meses e continua sem respostas


No dia 06 de novembro, completa 6 meses da chacina no Jacarezinho, e ainda não se tem respostas às perguntas principais. O relatório final da ação policial, com todos os atos nele contidos, se mantém em sigilo de cinco anos. Segundo a polícia, o relatório se manterá em sigilo para não atrapalhar o andamento de outras operações em favelas. A chacina é um assunto de interesse público, portanto não deveria se manter em segredo.

A chacina que aconteceu na favela do Jacarezinho, zona norte do Rio de Janeiro, resultou em 29 mortes e é já tem uma marca histórica na cidade. Ela se tornou a maior chacina do Rio, ficando à frente do massacre que aconteceu em 1993, em Vigário Geral e resultou 21 mortes.

Estes dois fatos tem em comum a morte de inocentes pobres, pretos, favelados e periféricos. Entre as 29 pessoas que foram assassinadas no Jacarezinho, três eram policiais civis. 20 deles eram homens negros.

A operação realizada na quinta-feira, dia 06 de maio de 2021, não poderia ter acontecido, isso porque o Superior Tribunal Federal – STF, tinha proibido operações policiais desse tipo em meio a pandemia. A polícia militar do Rio de Janeiro desrespeitou a ordem do Supremo Tribunal Federal.


Foto: Mariana Sales

Segundo o Dicionário Online de Português, chacina significa assassinato coletivo, ação de matar muitas pessoas ao mesmo tempo, massacre. E foi isso que aconteceu na favela do Jacarezinho, um massacre que deixou as ruas manchadas de sangue, trauma e dor, ruas essas que já presenciaram muitas mortes. Além da morte por conta de operações policiais, a favela tem sido a mais afetada nesta pandemia que o país ainda enfrenta. De acordo com o Painel Unificador Covid-19, chegam a 7.185 mortes por covid nas favelas do Rio de Janeiro. E o número de casos chega a 103.545

Seja por morte pela doença ou assassinatos, a favela tem sido afetada e procura formas de se ajudar e se apoiar em momentos difíceis. Em entrevista para o Portal Favelas, o líder comunitário Thiago Baía, falou um pouco sobre a relação da pandemia com as operações policiais nas favelas “As favelas tem que se juntar e fazer acontecer um pelo outro, porque se depender desse governo macabro, que quer matar preto, pobre e favelado, e branco também da favela. Porque para eles favelado é tudo igual. Só dependendo da gente vamos conseguir avançar. Infelizmente sabemos que isso não vai parar. A indignação fica, fica o alerta. A favela tem que acordar, temos que fazer esse trabalho sempre.”, diz.

Uma operação no Jacarezinho, que ocorreu em 2018, interrompeu o sonho de um menino de 14 anos, que estava de uniforme e mochila indo para a escola. Nesse dia mais um sonho de uma mãe e de um menino pobre e favelado foi interrompido. Quantos mais vão precisar morrer? A Bruna, mãe do Marcos falou sobre a dor de perder um filho e como operações desse tipo prejudica a vida dos moradores “Enquanto mãe do Marcos, moradora de favela, eu digo: quem matou meu filho foi a civil, a mesma polícia que fez a chacina. Há três anos eu venho atrás de justiça e não tenho conseguido. Foram muitas mães chorando. A gente quer um fim, um basta desse genocídio que está acontecendo dentro das nossas favelas.” Contou ainda sobre uma conversa que teve com seu filho logo após ser baleado “Meu filho me perguntou se a polícia não viu ele com roupa e material de escola. A polícia está entrando assim, despreparada para matar quem for na frente. A gente está vivendo um governo perigoso, o próprio presidente Bolsonaro fala que tem que mirar na cabeça e atirar. É devido um discurso desse, de um presidente desse que nossos jovens foram mortos.”, conta indignada.

A mãe do Matheus, jovem vítima do massacre que aconteceu em maio deste ano, também falou sobre a dor e indignação. O Matheus teve sua foto circulando na internet após ter sido morto. Ele foi colocado em uma cadeira com a mão no rosto, como forma de deboche praticado pela polícia. “Eu quero justiça. Meu filho foi colocado na cadeira quando estava tendo uma crise de epilepsia. Meu filho foi colocado na cadeira tendo uma crise convulsiva e atiraram nele enquanto estava sentado. O que eu espero, como pro meu filho quanto para os outros, é que tenha justiça. Não é possível que uma pessoa tendo convulsão estava trocando tiro, porque foi o que eles disseram. Ele estava sem arma, sem nada, sentado tendo convulsão. Espero que a gente tenha voz e que o Estado seja responsabilizado. O Estado não entra aqui para oferecer um trabalho, um bem. Meu filho foi criado e educado por uma mãe solo. E eu mereço respeito.”, conta.

Segundo o site Brasil Escola, a palavra genocídio, vem do grego e do latim, e é usada como referência ao ato de exterminação sistemática de um grupo étnico ou a todo ato deliberado que tenha como objetivo o extermínio de um aspecto cultural fundamental de um povo. O que aconteceu no Jacarezinho tem nome e significado.

A chacina está sendo investigada pelo Ministério Público e já tem dois polícias como suspeitos. O MP divulgou em nota que a ação que cumpria prisão preventiva e busca e apreensão foi comunicada a instituição logo após seu início.

A Anistia* Internacional soltou uma nota considerando lamentável a operação da Polícia Civil.


*A Anistia Internacional é um movimento global com mais de 10 milhões de pessoas, que realiza ações e campanhas para que os direitos humanos internacionalmente reconhecidos sejam respeitados e protegidos.

13 visualizações