22 mortos na operação policial na Vila Cruzeiro

A política de (in)segurança do Estado do Rio de janeiro continua deixando um rastro de indignação, protestos e morte nos territórios de favelas e periferia. Foi uma madrugada tensa na Vila Cruzeiro, favela carioca localizada no bairro da Penha, Zona da Leopoldina. Dezenas de carros de polícia civil, militar e rodoviária federal entraram de madrugada na favela e durante 12 horas sustentaram o confronto com os suspeitos de tráfico. A ação na Vila Cruzeiro é a maior operação mais letal do Rio de Janeiro, atrás somente da chacina do Jacarezinho.

Até o fim da tarde desta terça-feira já havia 22 mortos e um número incerto de feridos. Porta voz do estado informa que um policial civil, identificado como Sérgio Silva Rosário, foi ferido no rosto por estilhaços de bala enquanto fazia perícia no local. O tenente-coronel Ivan Blaz, porta-voz da PM, disse que o objetivo da operação é localizar criminosos da “facção Comando Vermelho” de outros estados que se escondem na Vila Cruzeiro.

O ouvidor geral da Defensoria Pública do Estado, Guilherme Pimentel, disse estar escandalizado com mais esta invasão. Disse que operações como estas jamais seriam toleradas em bairros nobres da cidade. “É preciso que também não sejam mais toleradas nas favelas do Rio”, afirmou indignado.

- “Essas operações policiais em favelas colocam em risco a vida de toda a população, impedem o funcionamento de serviços públicos e do comércio, inviabilizam a saída de milhares de pessoas para trabalhar e estudar, gastam rios de dinheiro e não resolvem absolutamente nenhum problema de segurança”, emendou o ouvidor.

professora Gabrielle Fereira da Cunha, morta no tiroteio

De acordo com a polícia, a operação terminou pouco depois das 16h com 22 mortos. A primeira a morrer foi a professora Gabrielle Fereira da Cunha, de 41 anos; ela levou um tiro dentro de casa, na entrada da Chatuba, que fica ao lado da Vila Cruzeiro. Um policial civil, identificado como Sérgio Silva Rosário, foi ferido no rosto por estilhaços de bala enquanto fazia perícia no local.

O tenente-coronel Ivan Blaz, porta-voz da PM, disse que o objetivo da operação é localizar criminosos de outros estados que se escondem na Vila Cruzeiro, acobertados pela facção Comando Vermelho. O militar afirma que lideranças da facção Comando Vermelho em outras favelas do Rio — como Jacarezinho, Mangueira, Providência e Salgueiro (São Gonçalo) — e até de estados do Norte e do Nordeste também estão abrigados na Penha.

Um morador da favela desabafou: Há muito tempo não se fala em ações militares contra favelas ocupadas pela facção do Terceiro Comando. Segundo ele, que pediu para não ser identificado, há quem diga que a milícia só não dominou o Rio de janeiro inteiro porque o Comando Vermelho é sua principal barreira.

Os confrontos dos suspeitos criminosos com a polícia aconteceram na parte alta da favela, próximo a uma mata onde muitos moradores acreditam que deve haver corpos de mortos ou feridos. Durante toda a operação policial, um helicóptero blindado da PM dava apoio aos agentes em terra. No início deste ano, em fevereiro, outra operação conjunta das polícias Militar e Rodoviária Federal (PRF) na Vila Cruzeiro teve pelo menos oito mortos.

De acordo com a Secretaria de Educação, treze escolas da rede municipal dos complexos da Penha e do Alemão precisaram ficar fechadas devido ao confronto. Durante o confronto a polícia apresentou como tendo sido apreendidos 13 fuzis, quatro pistolas, doze granadas e uma quantidade grande de drogas, que não havia sido contabilizada. Dez carros e vinte motos apreendidos foram mostrados como objetos de roubo.

Durante toda a terça-feira, moradores enviaram vídeos para as redes sociais mostrando detalhes da ação policial. Antonio Carlos Costa, presidente da ONG Rio de Paz emitiu nota afirmando: “Por que insistir numa política de segurança pública que nunca deu certo? O que mudou após as 28 mortes ocorridas no Jacarezinho? O que vai mudar após essas mortes na Vila Cruzeiro?”, disse ele.


Pessoas ficaram encurraladas no tiroteio


Outras vinte e uma entidades e políticos - entre eles a Anistia Internacional, o Observatório das Favelas, Instituto Marielle Franco, e a deputada Dani Monteiro (Psol), presidente da Comissão de Direitos Humanos da Alerj, assinaram uma nota conjunta pedindo o "cessar fogo imediato" na Vila Cruzeiro. Marcelo Frexo, candidato ao governo do Estado do Rio pelo PSB, também emitiu nota afirmando que operações como a de hoje nada resolvem e colocam em risco a vida dos moradores.


Esta matéria teve a colaboração de Maysa Glória e Anderson, ambos do Portal Favelas

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