• Redação

Ignorados pelo governo, moradores de Manguinhos contam com ONG para não morrerem de fome

"A gente vive através do alimento que a ONG dá traz e através das latinhas que minha mãe cata. Ela tira uns dez, vinte (reais) só por mês", conta Angélica Santos Siqueira, de 23 anos, referindo-se ao Rio de Paz. A ONG tem doado cestas básicas, quentinhas, cartões alimentação e kits de higiene a famílias nas favelas cariocas durante a pandemia do novo coronavírus.


Nesta quinta-feira (17/09), fez seis meses que o então governador Wilson Witzel assinou o primeiro decreto suspendendo as atividades no estado como medida de prevenção ao novo coromavírus. A situação agravou ainda mais a vida dos moradores de comunidades porque muitos perderam seu ganha pão.


Nesse período, a ONG Rio de Paz já distribuiu 30 mil quentinhas, 3.400 cestas básicas, 150 mil hambúrgueres e 200 cartões alimentação a moradores das favelas do Jacarezinho, Mandela e Manguinhos.


Além dos alimentos, a Rio de Paz também já doou durante a crise sanitária, 2.500 kits de higiene, 6.500 máscaras, 2 mil folhetos com informações sobre o coronavírus e produziu um vídeo sobre a Covid-19 para circular no WhatsApp moradores das favelas. Agora, os moradores contam como esse auxílio do terceiro setor os ajudou, enquanto o estado, os invisibiliza.

SEM EMPREGO, SEM AUXÍLIO EMERGENCIAL

Angélica mora no Mandela, na Zona Norte do Rio, com três irmãos e a mãe, que tem problemas de saúde. Todos estão desempregados e não recebem nem Bolsa Família e nem o auxílio emergencial, benefício criado pelo governo federal para auxiliar famílias de baixa renda na crise sanitária. "Tentei fazer o cadastro, mas não consegui", conta ela.

"Se não fosse a cesta básica, ficaríamos sem alimento. Já corri atrás de emprego e não consegui. Não me chamam", diz a jovem. "Teve uma vez que a gente ficou sem comida. Tive que ligar pro João e ele trouxe. É triste quando meus irmãos querem alguma coisa e minha não tem", lamenta Angélica referindo-se a João Luís Silva, funcionário do Rio de Paz.

Vizinha de Angélica, Cristiane Cândido, 43 anos, conta o drama de viver sem emprego numa casa com 14 pessoas: cinco adultos, todos desempregados, e 11 crianças, entre netos e sobrinhos. Mesmo recebendo auxílio emergencial, o benefício não é suficiente e ela conta com as cestas básicas do Rio de Paz.


Angelica cuida da mãe que tem problemas de saúde


"É muita criança, muito gasto. A gente vai se virando. Compra uma coisa aqui, outra ali. Quando eu ganho a cesta é uma ajuda também. Se não fosse isso, ia ser difícil, ainda mais com as coisas caras como estão", diz Cristiane revelando como divide a comida em casa.

"Já tem a quantidade certa para colocar para eles. Se for um bife, divide e cada um come um pedacinho. Café da manhã às vezes não tem pão e as crianças ficam com fome esperando a hora do almoço. Janta, não faço para não gastar mais. Se sobrar do almoço, esquenta e come", conta Cristiane.


Cristiane conta o drama de viver sem emprego numa casa com 14 pessoas: cinco adultos, todos desempregados, e 11 crianças, entre netos e sobrinhos


Para Maria José Rodrigues dos Santos, 75 anos, a ajuda do Rio de Paz chegou em forma de cartão alimentação, que permite o morador comprar qualquer produto em qualquer estabelecimento da comundade. Ela vive com o marido que está doente e é acamado.

"Comprei frango, comprei carne, biscoito. Foi ótimo. Toda ajuda que vier é bom", comemora ela, que cuida do marido de 71 anos acamado devido a um acidente e depressão.

Moradora de Manguinhos, Liliana Bonfim Raimundo, 31 anos, recebe da ONG kits de higiene, cesta básica e quentinhas que são distrbuídas aos moradores do Jacarezinho pelo Rio de Paz, projeto na qual é voluntária. Ela mora com o marido e os três filhos em apenas um cômodo sem janela. Liliana e o marido estão desempregados, recebem R$ 212 do Bolsa Família, mas o valor não suficiente para suprir as necessidades da casa.


Liliana conta com as cestas básicas da Rio de Paz para se manter, até conseguir o Bolsa Família para alimentar sua família


"O que tem ajudado a gente é a ONG: as quentinhas que a gente traz para jantar e quando sobra a gente almoça, e as cestas básicas que eles doam que também está ajudando muito. Até eu receber o bolsa (família) demora e é com a cesta basica que a gente consegue se manter", diz Liliana.


AÇÕES CONTINUAM

Nesta quarta-feira (16/07) o Rio de Paz distribuiu kits com álcool 70 e sabonetes a moradores do Jacarezinho. O material foi colocado em um banca na rua principal da favela e doado a quem passava.


Presidente do Rio de Paz, Antonio Carlos Costa, ressalta a importância das doações para a ONG, sejam elas de empresas parceiras ou de pessoas, e destaca também o trabalho dos voluntários.


“Quando todos estavam em pânico com o risco da contaminação pela covid-19, nossos voluntários entravam nas comunidades pobres da cidade, expondo as suas vidas ao risco de morte a fim de espantar da casa do despossuído o espectro da fome. Contudo, nada do que fizeram teria sido realizado se não fosse a generosidade dos que, movidos pela mesma solidariedade, contribuíram financeiramente para a realização desse trabalho humanitário", diz ele.


COMO AJUDAR A RIO DE PAZ:

Para ajudar nas ações da Rio de Paz, você pode doar qualquer valor pela conta bancária abaixo:

Banco Itaú

Agência 1185

Conta 44820-4

CNPJ 09.551.891/0001-49

O Portal Favelas é uma construção coletiva de moradores de favelas, para falar de e para as favelas, por meio da integração dos diversos canais de comunicação locais ou regionais.

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