• Bárbara Nascimento

ONG do Vidigal sofre prejuízos ao ser alvejada por tiros pela PM


Foto: Linn Falcão


O tiroteio ocorrido no Vidigal, na noite do dia 28, deixou um morador ferido e uma instituição social alvejada. O Largo do Santinho, área de concentração do comércio local, foi o palco do confronto entre policiais e traficantes. Ali, logo em frente, está localizada a ONG Grupo de Ação Social Comunitária, GASCO, importante na prestação de ajuda humanitária durante a pandemia.


Felizmente, na ocasião, por volta das 21h, a instituição, que tem atendido 170 famílias vidigalenses com distribuição de cestas básicas e ajuda psicológica, estava vazia. Embora, nenhuma vida tenha sido ceifada, sonhos foram comprometidos. Isso porque o prédio que abriga a ONG foi atingido por diversos disparos. Os tiros atingiram o portão, as janelas, o telhado, o muro externo, o espelho da sala de balé e até a van estacionada no pátio. O veículo que antes da pandemia transportava crianças para a escola e para os eventos culturais ofertados pela instituição, atualmente estava destinado ao transporte das doações de cestas básicas.


Bernadete Soares Pereira, presidente da instituição, levou um susto ao ver os estragos, na manhã do dia seguinte. O prejuízo contabilizado comprometerá o retorno do funcionamento institucional quando a pandemia for superada. A GASCO atendia antes da pandemia 126 crianças através de aulas de balé clássico, judô, reforço escolar, beach tênis, dança contemporânea e passeios culturais. Além disso, 45 mulheres adultas e idosas praticavam aulas de zumba, artesanato e fazem curso de tranças e penteados afros na instituição.


A líder comunitária demostra indignação e reclama quem irá arcar com os prejuízos:

“Só um espelho daquele é R$ 800. Cada janela daquela é de R$ 70 a 80 para trocar aquele vidro. Quem vai reparar esse dano? A instituição não está tendo atividade por causa da quarentena, mas nós estamos lá todo dia para entregar cesta básica, para não deixar faltar o leite para as crianças, para não deixar faltar o Mucilon, para não deixar faltar o arroz e o feijão. Se não é o projeto social dentro da comunidade, não só na nossa, mas em outras comunidades também, a população ia passar fome. A gente tá sempre com esse olhar de ver quem tá precisando e ajudar. O nosso trabalho é esse. E você ver que ficamos um tempo ali cuidando, trabalhando, para depois ver tudo metralhado. Aí, eu pergunto a você, quem é o culpado?


Bernadete fez registro de ocorrência e pediu uma perícia no local. “Alguém tem que ajudar a gente a construir o que destruíram. Eu não sei que treinamento é esse que eles atiram a esmo. Não sei se ficam nervosos. Não sei o que acontece ali. A gente quer fazer um trabalho bacana e acontece isso, começa um tiroteio louco, desvairado, e a gente não sabe o porquê e nem se é necessário”.


Foto: GASCO


São serviços importantes no Vidigal. Afinal, o pandemônio vivenciado na favela não faz quarentena. A solidariedade e o espírito comunitário são ferramentas de sobrevivência, independente da pandemia. As ações sociais em territórios periféricos minimizam mazelas ignoradas pelo poder público. Instituições como a GASCO, segundo Bernadete, “ensinam esperança a crianças, mostram um lado bom da vida”.

Foto: GASCO



Foto: Linn Falcão. Espelho da sala de dança é atingido.


Foto: Linn Falcão.Interior da van atingida pelos disparos.



Desde 5 de junho, o ministro do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, proibiu ações policiais em favelas durante a pandemia. O texto, inclusive, prevê responsabilização civil e criminal em caso de descumprimento. Porém, o governo do Rio de Janeiro recorreu da decisão. Os julgamentos no plenário virtual durarão até 4 de agosto, prazo para que os ministros apresentem seus votos. Até agora, além do próprio relator, três dos onze ministros confirmaram a liminar de relatoria de Fachin (Marco Aurélio Mello, Ricardo Lewandowski e Rosa Weber). Dos votos declarados, apenas o ministro Antônio de Moraes é contra à suspensão das operações policiais durante o período pandêmico. Ao defender sua posição Moraes colocou:“A ausência de atuação policial durante período indeterminado gerará riscos à segurança pública de toda a sociedade do Rio de Janeiro, com consequências imprevisíveis”.


Ocorre que tais ações policiais além de colocarem a vida dos moradores de favelas em risco, impedem outros serviços públicos e sociais. Quando ocorrem tiroteios, o posto de saúde é fechado, o serviço de coleta de lixo é interrompido e o bastecimento de energia é afetado por disparos que costumam atingir a rede elétrica. Além disso, as instituições sociais são impedidas de funcionar ou têm seu patrimônio danificado _ como foi o caso da GASCO. Ajuda humanitária foi interrompida à bala. Além dos prejuízos para a retomada das atividades após a pandemia, a instituição não poderá contar com a van que faz o transporte dos alimentos distribuídos às 176 famílias atendidas pela instituição durante esse período. A fim de custear os prejuízos causados pelo confronto, a GASCO está realizando um vakinha virtual. Quem quiser contribuir, basta acessar a página da instituição no Facebook e clicar na campanha.


O mototaxista baleado no confronto, Lindemberg Ferreira, de 42 anos, conhecido como Berg, foi socorrido por moradores e levado para o hospital Miguel Couto. A vítima foi operada e permanece internada. Moradores reclamam que a polícia não prestou atendimento. Já, segundo a PM, policiais lotados na UPP do Vidigal foram atacados por criminosos durante um patrulhamento. De acordo a Assessoria de Imprensa da Polícia Militar do Estado do Rio: "Os policiais foram informados que uma pessoa havia sido ferida. A equipe conseguiu chegar ao local, ainda ocorrendo disparo na região, no entanto não conseguiu fazer o socorro."



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