O PERIGO DO DISCURSO ANTICIENTÍFICO PARA AS CIÊNCIAS E PARA A SOCIEDADE

Atualizado: Mai 28

Por Rafael Ademir Oliveira de Andrade

Foto fornecida pelo autor

Começamos com as Ciências Humanas. Primeiro os professores e pesquisadores desta área foram desclassificados, colocados como produtores de arte ou cuidadores de crianças, no ano de 2014 um professor universitário afirmou que “Pedagogia nem é ciência e sim uma forma de arte” usando a palavra arte como pejorativo para separar cientistas de artistas. Naquele momento não ligamos, lembrando do poema de Martin Niemoller (1892-1984), onde os grupos sociais eram perseguidos e como não fazíamos parte do mesmo, não nos importamos:

"Quando os nazistas vieram buscar os comunistas, eu fiquei em silêncio; eu não era comunista.

Quando eles prenderam os sociais-democratas, eu fiquei em silêncio; eu não era um social democrata.

Quando eles vieram buscar os sindicalistas, eu não disse nada; eu não era um sindicalista.

Quando eles buscaram os judeus, eu fiquei em silêncio; eu não era um judeu.

Quando eles me vieram buscar, já não havia ninguém que pudesse protestar."

No Brasil, de forma irônica ou relacionada, vivemos hoje uma situação semelhante no que tange ao discurso anticientífico. Irei citar alguns casos: em 2020 no meio da pandemia provocada pelo COVID-19 o governo federal retirou as Ciências Sociais e Humanas dos programas de bolsas de IC (envolvendo Direito, Contábeis, Administração, Educação, Economia, dentre outras), ainda no mesmo processo o governo retirou dois médicos do Ministério da Saúde e hoje (21 de maio de 2020) mantém um militar assessorado por outros 12 militares no mesmo ministério, nenhum médico.


Ontem, dia 20 de maio de 2020 um médico cotado para o Ministério da Saúde afirmou categoricamente que contadores não trabalham e professores são aqueles mais burros e menos interessados em estudar, dando ênfase para os pedagogos. Ainda durante a pandemia enfermeiros e técnicos em saúde foram atacados física e verbalmente, mesmo quando choravam seu luto e revolta pela morte dos colegas ao mesmo tempo em que um delegado de polícia entregava kits de remédios para pessoas no Pará, em outro lugar temos um professor que desrespeita os professores em suas posições de chacota para com a sua classe. São muitos os exemplos do discurso anticientífico e como suas práticas violentas se reverberam. Com aceitação da massa populacional.

Temos que adicionar coisas “menos políticas”, mas que cada vez mais se inter-relacionam: o surgimento de práticas não baseadas na ciência para a cura ou prevenção de doenças psíquicas e biológicas: prescrições nutricionais de não nutricionistas, psicoterapias de não psicólogos, prescrições medicamentosas de não médicos, tudo isso aos montes nas redes sociais com milhões de seguidores, nas caras dos Conselhos de Classe e profissionais sérios. O surgimento deste cenário tem duas perspectivas possíveis:


Primeiro, o distanciamento da academia da sociedade e a tradução feita pelos novos intelectuais não-orgânicos de soluções para problemas que a ciência se debruça a séculos, em outras palavras: todos aqueles problemas que a ciência tenta ou resolve agora são colocados como superados facilmente pelos facilitadores sem formação. A maioria destes “solucionadores” sofrem da “síndrome adâmica” que debate a análise do discurso: acreditam piamente que ideias debatidas por diversos de autores surgiu magicamente em sua cabeça, pensam que são o primeiro da espécie.


Assim, há uma negação da ciência, a ciência não resolve, o que resolve é a empiria crua ou o engodo discursivo – se funciona comigo funcionará com todos (sofrendo mais: nutrição, medicina, psicologia, gestão) ou “a causa é simples” (sofrendo mais: psicologia, nutrição) respondendo a problemas complexos com respostas simples e uni causais.


Segundo, a incessante busca por reescrita da história por setores da sociedade sendo necessário para isto retirar o poder simbólico e técnico dos agentes sociais responsáveis por tal escrita (Leia-se: artistas, historiadores, sociólogos, antropólogos e epistemológicos das ciências). Impossível não lembrar da frase de George Orwell no livro 1984:

“Quem controla o passado, controla o futuro. Quem controla o presente, controla o passado”

Esta reescrita não é “ao acaso”, há uma intencionalidade de controlar o futuro a partir da reescrita do passado. São vários os exemplos no Brasil: membros do legislativo afirmando que os negros vieram de “bom grado” para o Brasil colônia, não houve violência na ditadura militar, os indígenas não foram escravizados e servem as ONGs internacionais para dominar a Amazônia, dentre outros exemplos. Mudando a história a partir de critérios não científicos (personalismo – “minha mãe me disse” -dados sem comprovação e comparações entre cenários e momentos históricos – anacronismo intencional) as redes sociais e agentes políticos reescrevem a história no lugar dos técnicos treinados para isto. E para tal ação não precisa ser cientista, é preciso ter audiência.


Entretanto, quando eram as Ciências Humanas (a tia da escola, o professor maluco, o bicho-grilo) eu me calei (ou até achei bom), agora que a ciência como um todo sofre ataques pode ser tarde demais para falar. E com relação as ciências não citadas aqui? Ficam relegadas ao tecnicismo, a produzirem a mando de uma estrutura que está alheia aos interesses dos próprios agentes científicos ou técnicos, sendo orientados a ter uma visão unicamente produtiva e submissa aos campos econômicos e políticos perdendo o que Pierre Bourdieu chama de “autonomia do campo científico”.


Ciências seculares como as Biológicas hoje tem seus discursos descartados pelo “digital influencer” no que tange ao perfil epidemiológico do COVID-19 mesmo que o biólogo falando seja doutor (ou seja, especialista na área) e mundialmente reconhecido quando se fala sobre o tema.


Repetido como um mantra em todos os textos que escrevi recentemente: “O COVID-19 destacou todos os elementos da sociedade que vivemos”. Trouxe à tona o discurso anti-ciência que circula pelo país há muitos anos e o seu aceito dá força para o mesmo para um mundo pós-pandemia.


Neste mundo qual será o papel da ciência e da reflexão científica? Algumas voltadas para o esquecimento e outras para o extremo-tecnicismo ao ponto que não saberemos diferenciar máquinas do bacharel, do mestre, doutor?


Tudo começou com as Ciências Humanas, mas como eu não era das Humanas, fiquei em silêncio. Quando todos os cientistas desaparecerem, quem vai lutar por você?


Rafael Ademir Oliveira de Andrade Sociólogo, Mestre em Educação. Doutorando em Desenvolvimento Regional e Meio Ambiente. Professor de Humanidades e Formação de Professores no Ensino Superior e Iniciação Científica com temática Indigenismo, Violências e Povos Indígenas no Brasil.







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