• Redação

O COVIDE e o Corre na Favela

Por Edimara Celi, Ativista Social, membro da executiva Nacional e líder Estadual Frente Favela Brasil

Voltava de uma viagem a Salvador, foram dias incríveis! Já havia rumores da chegada do vírus no Brasil...

Salvador , suas cores e sabores criaram um universo paralelo e não havia ainda percepção de qualquer gravidade no meu olhar turístico até que cheguei no Rio.

Senti sintomas de gripe e logo despertei para as notícias dos telejornais... me senti meio paranóica e sem dar alarde, tratei dos sintomas de maneira diferente.pois para uma pessoa sintomática como eu, já estaria fadada a padecer.

Me mantive reclusa o máximo que pude e aguardei 10 dias se passarem e me sentir bem. Sem qualquer sintoma, comecei a colocar em prática tudo o que planejei nos dias de minha leve convalescência...meu drama também sintomático, me faz jurar que senti tudo muito diferente entre uma febre e outra, um pigarro chato e seco...enfim, já estava de pé!

O planejamento enfim, precisava se tornar ação e logo fiz meus contatos pois as lideranças de favelas já estavam então se movimentando para o que haveria de vir. As quebradas conhecem bem o silêncio que precede o esporro... e por isso deixa de temer. Quem vê a morte em cada esquina por conta das violências, arbitrariedades e falta de visibilidade não se abate fácil a pressão dos noticiários...

Mais uma vez dei início as ações que no bom favelês , chamamos de “corre”. Primeiro corre foi atender a Baixada fluminense que precisava de sabonete líquido e conseguimos fazer chegar o bastante para atender a comunidade que já estava atenta a questão da higienização das mãos. Entramos mais uma vez em uma briga por conta da falta de água com a companhia que deveria prestar esse serviço...essa briga vem de longuíssima data e não podemos parar!

Partiu outro corre agora para entrega de cestas básicas em uma favela da Vila Kennedy, bem pertinho de onde moro. Fui criada ali e saí de lá já adulta para viver em outra região, mas, como diz minha mãe: parece que meu umbigo está enterrado ali! E sempre acabo voltando , participando de algo ligado a cultura ou política social. Sempre volto!

Em casa, todo cuidado necessário para não haver contaminação.

As notícias de cada vez mais conhecidos de amigos infectados me fizeram montar estratégias de atuação que me preservasse mais e por conseqüência mantivesse a salvo minha mãe , filha e companheiro que ainda estava trabalhado diariamente. As notícias já eram mais diretas, o que estava distante, já se aproximava.deixando de ser números e se tornando rostos...

Um dia, meu companheiro amanheceu com sintomas e não foi trabalhar, logo percebi que poderia ser a famigerada COVID-19. Para impedir que ele levantasse para o trabalho, era sim algo a se dar maior atenção.

Os sintomas aumentam, minha preocupação também e as notícias não paravam de chegar um só instante. É grave realmente! Atestado positivo para COVID-19!

Deleguei funções e me afastei das atividades de auxílio aos mais necessitados e precisei focar na minha casa e na minha família. Quem tem o social como missão de vida sabe o quanto é doloroso em um momento como o que atravessamos , não poder estar na linha de frente atendendo a quem a gente sabe que vai sair perdendo ainda mais... com o peso de uma responsabilidade absurda, precisei parar e cuidar dos meus mais chegados.

Corre médico, exames... e o peso aumenta, sabendo que tudo o que conseguimos de progresso para a melhora do quadro, só foi possível por conta do plano de saúde pago pela empresa.o aumento do peso é absurdo, pois a todo instante lembro que a favela está padecendo sem qualquer recurso em sua grande maioria. Foca no tratamento do companheiro Preta! Olha a responsabilidade Preta!

A cada jornal, uma aflição e a cada olhar para o lado, medo de perder meu companheiro de vida. Como ele é forte!

Suportou dores terríveis em sua cabeça e nuca, sem paladar, sem olfato, olhar caído e a febre mais teimosa que vi na vida...

Vencemos! O confinamento teve sucesso! Os cuidados e a reclusão total nos fez vencer o vírus aqui em casa. Seguimos cuidando uns dos outros.

E o corre?

Com mais cuidado e total prudência , volto as atividades e crio logo um Projeto que me facilita centralizar as atividades de distribuição entre a equipe. A favela não pode esperar mais... já se passaram 123 anos dessa espera... desde o primeiro barraco no alto do Morro da Providência.

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