• Xico Teixeira_da redação

NADA SERÁ COMO ANTES

“Onde há resistência, há esperança de mudança”. Esta é a maior mensagem neste artigo do professor Orlando Guilhon, ativista político, participante do coletivo Fernando Santa Cruz, FNDC e do Portal Favelas. Ao nos provocar a uma reflexão sobre o que acontece no Brasil e sobre o nosso futuro, Guilhon busca inspiração em Milton Nascimento (Nada será como antes) e em Chico Buarque (Amanhã, será outro dia) e fala sobre nossos valores universais de solidariedade, tolerância, afeto, acolhimento, cuidado com o outro, cumplicidade entre outros que formam corações e mentes dos brasileiros. Fala ainda da crise do capitalismo e do mercado e da luta contra um governo que vem colecionando “besteiras e incompetências, uma atrás da outra, navegando entre a necropolítica do ódio e da intolerância e a política neoliberal de ataque aos direitos sociais do povo, sinais positivos aparecem no horizonte, entre lideranças da oposição, movimentos sociais e entidades da sociedade civil.”

Como diz a música, ‘Amanhã, será outro dia...’. Quando a crise da atual pandemia passar, o mundo não será o mesmo. Sim, ainda haverá luta de classes e exploração do homem pelo homem. Sim, ainda haverá guerras, fome e injustiças sociais distribuídas pelo planeta. Sim, ainda haverá idiotas acreditando que a Terra é plana e que o Mercado tudo resolve. Sim, ainda haverá ‘fake news’, manipulação da informação e tentativa de impor um ‘pensamento único’. Mas, a experiência que homens e mulheres do mundo todo estão vivenciando neste período de quarentena marcará várias gerações por muito tempo.

As lições são muitas, só não vê quem não quer.

1. O "Deus Mercado" sai bastante abalado deste momento histórico. A tese de que o Mercado tem capacidade de resolver os principais problemas das sociedades contemporâneas, buscando um natural equilíbrio entre oferta e demanda, virou estória da carochinha. “Tudo o que é sólido, se desmancha no ar...”, já dizia um filósofo alemão do século XIX. O Estado, tão atacado pelas forças políticas e econômicas que defendem as maravilhas do sistema neoliberal, sai definitivamente fortalecido desta experiência. Só um Estado forte e empoderado, com políticas públicas consistentes, voltadas para a maioria da população, consegue enfrentar com razoável eficiência uma pandemia com a dimensão de consequências sociais e econômicas como a atual. Simples assim.

2. Valores tão praticados pela direita conservadora, como o egoísmo, o individualismo, o consumismo desenfreado, o preconceito, a intolerância, o ódio e a violência, também saem bastante abalados desta situação. Uma enorme teia de solidariedade e humanismo vai se formando nas redes e plataformas virtuais, nas janelas e lajes, nos corações e mentes de milhões de seres humanos. Compartilhamento, esperança, companheirismo, sociabilidade, comunhão, afeto, tolerância, acolhimento, cuidado com o outro, cumplicidade, vão se afirmando a cada dia desta quarentena, não apenas dentro de cada família, comunidade, grupo, cidade, país, mas em todo o planeta. Desculpem, mas esses são os valores históricos da esquerda, pra quem ainda não sabe.

3. Como a humanidade vai tratar da Ciência e da Cultura, quando todo esse inferno terminar? Tão massacradas e vilipendiadas ultimamente, em nosso país e em outros aonde predominam forças retrógradas no poder, renascem das cinzas, qual Fênix, dando verdadeiros shows de afirmação e compromisso com a vida. Profissionais de saúde enfrentando com heroísmo a pandemia na linha de frente, cientistas e pesquisadores trabalhando duro nos laboratórios e instituições de pesquisa, em busca de vacinas e remédios, cantores, músicos, poetas e artistas em geral brindando vizinhos e a comunidade mundial com belas performances nas janelas, lajes e redes virtuais. Filmes, livros, shows musicais, visitas a museus, circulando livremente nas redes. Nunca, em tão pouco tempo, foi tão forte a percepção de que Ciência e Cultura são vitais para a vida dos seres humanos. Desculpem aí, terraplanistas e congêneres.

4. Como será a geopolítica mundial, depois da pandemia? Não temos bola de cristal, é verdade, para prever o futuro. Mas, uma coisa é certa. O discurso conservador anticomunista vai perdendo consistência e sentido. Enquanto os dirigentes dos EUA e de vários países europeus capitalistas meteram os pés pelas mãos no combate à pandemia (inclusive o nosso), Cuba, sob comando do Partido Comunista Cubano, dá exemplo ao mundo, mais uma vez, enviando médicos para ajudar o combate à pandemia em vários países, dando um show de solidariedade internacional, mostrando a importância do investimento em ciência no caso do Interferon, e enfrentando com sucesso o combate ao vírus em seu território, com políticas públicas eficazes, muita disciplina e um Estado forte. A China, sob comando do Partido Comunista Chinês, reverteu a situação inicial de ser o epicentro da pandemia (hoje é o EUA), ensina ao mundo como combater a pandemia, ao iniciar de forma ousada e pioneira o isolamento horizontal radical, ao enviar a muitos países equipamentos como máscaras, luvas e respiradores, ao produzir em várias línguas manuais de combate ao coronavírus. O Vietnam, outro país comunista, apesar de ser um país com poucos recursos, agiu rapidamente, fechou fronteiras e voos, escolas e atividades públicas, registra um baixo número de infectados e de mortes, e agora trata de ajudar seus irmãos do Camboja. Viva o Comunismo, viva o Internacionalismo Proletário!

5. Como ficará a nossa relação com o Planeta Terra, quando essa ‘bad trip’ terminar? Não faltaram avisos. Cientistas, ambientalistas e ecologistas tem advertido o mundo, a muito tempo, de que a humanidade tem maltratado a nossa Mãe Terra, nossa natureza e nossos recursos naturais esgotáveis, e que cedo ou tarde ela cobrará seu preço. O Papa Francisco já havia nos havia alertado em sua encíclica ‘Laudato Sí’, sobre a necessidade de uma mudança radical na forma como nossas sociedades humanas tratam a nossa Casa Comum. Muitos se perguntam se a atual pandemia seria um mau presságio, uma espécie de moderna ‘praga do Egito’. Mudaremos o nosso comportamento, diante do Planeta? A oportunidade está aí, tiremos desta aflição as lições que devemos tirar. Cuidemos melhor da nossa Casa Comum.

6. E a economia, como ficará a economia mundial, depois desta crise? Sim, os arautos do poder do Mercado tentarão voltar com sua cantilena, num mundo majoritariamente capitalista e globalizado, para que tudo volte ‘a ser como dantes, no quartel de Abrantes’. Mas, será isso possível? O censo comum do cidadão diante desta crise é de que as empresas não existem sem o trabalhador, sem a força de trabalho. Capital, máquinas e insumos, matérias primas e patrimônios, de nada valem sem a força de trabalho. Foi patético ver, aqui no Brasil (assim como em outros países), os empresários rogarem aos trabalhadores para que voltassem ao trabalho, com suas carreatas elitistas e seus carrões de luxo. Nunca se falou tanto na enorme desigualdade social existente no Brasil e no Mundo. Os dados da Oxfam estão aí pra todos verem. No mundo, apenas 8 pessoas detém o mesmo patrimônio dos 50% mais pobres da população mundial. No Brasil, a situação é ainda mais drástica. Sendo o 9º país mais desigual do mundo (de uma lista de 190 países), aqui os 6 multimilionários mais ricos possuem a mesma riqueza dos 100 milhões de brasileiros mais pobres. É um escárnio! Até quando vamos aceitar pacificamente este ‘tapa na cara’. Taxação das grandes fortunas, já! O capitalismo é predatório, autofágico e excludente.

7. E o nosso país, o Brasil, como ficará nossa Nação e nosso Povo, depois da pandemia? Sobreviveremos ao vírus e à ameba que nos governa? Tudo indica que sim. Nosso povo tem uma capacidade de resistência e uma resiliência incrível. Enquanto o capitão de plantão vai colecionando besteiras e incompetências, uma atrás da outra, navegando entre a necropolítica do ódio e da intolerância e a política neoliberal de ataque aos direitos sociais do povo, sinais positivos aparecem no horizonte, entre lideranças da oposição, movimentos sociais e entidades da sociedade civil. Governadores de perfil oposicionista criaram o Consórcio do Nordeste, e buscam se contrapor à ineficiência do Governo Federal, não só no combate à pandemia, mas em muitas outras áreas. Em 03 de março, líderes políticos de 8 partidos de oposição lançaram uma dura carta reafirmando a unidade contra a agenda neoliberal e autoritária de Bolsonaro. No dia 30 de março, 14 líderes de 7 partidos de oposição lançaram um manifesto pedindo a renúncia de Bolsonaro, a quem chamaram de irresponsável. No dia seguinte, as Frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo, reunindo mais de uma centena de movimentos sociais e entidades, lançaram a ‘Plataforma Emergencial para o Enfrentamento da Pandemia e da Crise Brasileira’, com 60 propostas para proteger a vida, a saúde, a renda e o emprego, Neste 7 de abril, outras entidades de peso da sociedade civil, como OAB, ABI, CNBB e SBPC, lançaram o manifesto ‘Pacto pela Vida e pelo Brasil’, contrapondo-se com firmeza à falta de iniciativas do atual Governo Federal. Ao longo do último mês, impedidos de ir às ruas para se manifestar em atos públicos e passeatas, brasileiros e brasileiras de diversos matizes ideológicos tem mantido viva a chama da indignação e do protesto, nas redes virtuais e nos barulhaços e panelaços nas janelas e lajes, pelo país afora. Onde há resistência, há esperança de mudança. Quem viver, verá!

Orlando Guilhon Portal Favelas e Coletivo Fernando Santa Cruz

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