• Bárbara Nascimento

DE QUARTO DE DESPEJO A SOLUÇÕES SANITÁRIAS

Atualizado: Abr 9



Foto: Maurício Hora



É comum encontrarmos em textos que se dedicam à favela definições como: “local de proliferação de doenças”, “avessa a toda e qualquer regra de higiene”, “infestação avassaladora”, “cancros sociais”. Essas visões higienistas acompanham esse território desde seu surgimento.


Afinal, um dos seus marcos de origem é o “bota abaixo” dos cortiços do centro da cidade - gênese da representação física da favela. Em 1893, o Cabeça de Porco, maior cortiço do Rio de Janeiro foi demolido. Barata Ribeiro era o prefeito na época. Professor da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, cuja tese de doutorado tinha o título “Quais as medidas necessárias devem ser aconselhadas para impedir o desenvolvimento e propagação da febre amarela na cidade do Rio de Janeiro”, percebia os cortiços como fontes de miasmas e foco de infecções. Logo, acabar com o Cabeça de Porco representava limpar a cidade dessa presença anti-higiênica.


Segundo alguns estudiosos, foi com as sobras das madeiras demolidas do Cabeça de Porco que moradores construíram os primeiros barracos no Morro da Favela, hoje Morro da Providência. Ora, se o prefeito sanitarista desejou extirpar o pobre e o seu local de habitação como medida de saúde pública, hoje a favela que deu origem a todas as outras cria soluções higiênicas para o combate ao Coronavírus.


É do Morro da Providência, primeira favela, a iniciativa de colocar bicas d´água em diversas áreas da comunidade para que os moradores possam fazer a higienização das mãos. A ideia surgiu quando Alessandra Roque, que fabrica sabões, pensou em doá-los aos seus vizinhos. Ocorre que as crianças, ainda que tivessem esse item de higiene em casa, permaneciam brincando pelas vielas. Uma forma de minimizar a proliferação da COVID -19 na favela foi disponibilizar a essas crianças o acesso à água ao ar livre. E, é claro, que as crianças não são as únicas beneficiadas, todos que precisam transitar pela localidade fazem uso das bicas públicas. Alessandra e o líder comunitário e fotógrafo Maurício Hora instalaram quatro bicas pelo Morro da Providência e pretendem multiplicá-las pela favela. Faltam recursos para isso. As quatro primeiras foram custeadas pela dupla que não tem meios financeiros para expandir a ação.

A instalação de bicas comunitárias em favelas não chega a ser uma novidade. O abastecimento de água em territórios periféricos costuma ser deficiente. Logo, o uso coletivo é uma forma de diminuir a escassez (essa prática já era comum, inclusive, nos cortiços). Na década de 1980, a CEDAE espalhou bicas similares em diversas favelas. Maurício Hora diz ter se lembrado dessa época ao ver crianças utilizando a primeira bica instalada por ele e Alessandra. Mas, também é preciso lembrar que, ainda hoje, em vários territórios periféricos, o abastecimento de água é precário. Famílias passam dias sem uma gota na torneira. Na providência, o fornecimento de água ocorre em dias alternados. Isso faz com que alguns moradores sintam receio de que o uso coletivo prejudique o abastecimento das caixas d´águas das casas. Atentos a isso, os idealizadores instalarão as próximas bicas em pontos de distribuição de água para a favela.

Foto: Maurício Hora


Outra inciativa sanitarista local foi desenvolvida no morro do Santa Marta _ primeira favela a sofrer a “higienização social” com a implantação da UPP. Acostumada, durante o auge da “suposta pacificação”, a aparecer nos noticiários por conta da gentrificação que sofria, nos últimos dias protagoniza o fato de ser a primeira localidade a fazer a higienização das ruas com o mesmo equipamento usado pela China.


Thiago Firmino, líder comunitário e guia de turismo no Santa Marta, e voluntários percorreram as vielas do morro, paramentados com roupas e máscaras de proteção e um equipamento de quatorze quilos nas costas. Os jatos do equipamento contêm uma mistura de hipoclorito de sódio (água sanitária) que foi aplicada nas ruas partir da parte mais alta da favela.


O produto químico mais adequado é o quaternário de amônia de quinta geração. Mas, custa cerca de dez vezes mais o valor do galão com a mesma quantidade de água sanitária com cloro ativado. Embora tenham feito a substituição barateira, Thiago Firmino e os voluntários envolvidos na ação precisam de apoio financeiro para que possam dar continuidade à higienização do Santa Marta.



Foto: Thiago Firmino

A favela cria estratégias, mas é preciso que o Estado assuma o seu papel e crie medidas específicas para que a população favelada consiga se prevenir contra o Coronavírus. Afinal, a favela não é um território apartado. Favela também é cidade. Embora vista como “quarto de despejo”, como definiu a escritora negra da favela do Canindé, Carolina de Jesus, “a favela não é problema; favela é solução” _ como nos disse outra negra favelada, Marielle Franco.

Quem quiser colaborar com as ações aqui descritas, entre na seção do Portal Favelas "Campanhas de doação".



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