A Solidariedade nas Favelas

(Por Álvaro Maciel)

Foto - Grupo de Voluntários de Higienização


O Babilônia Utopia fechou o mês de abril com realização de três operações de sanitização no morro da Babilônia e Chapéu Mangueira, localizado no bairro do Leme, na Zona Sul da Capital. Sua primeira ação de sanitização foi realizada no sábado, 18/04, organizada pela diretoria do movimento, sob a liderança de André Constantine. Essa primeira operação contou com a presença dos pioneiros em sanitização de favelas no Rio, Thiago e Tandy do Santa Marta. O encontro das duas equipes aconteceu logo pela manhã, no Espaço Jardim da Babilônia, onde funciona a sede do movimento. Assim, foi formado um grupo misto de trabalho, composto por lideranças das duas favelas. A equipe composta por André, Michele, Grande, Negão, Anderson e Peixe não parou aí, voltou a operar com suas máquinas nos dias 26/04 e 30/04. Além da sanitização das vias, becos e escadarias no interior da favela, o grupo atuou também nas mediações das instalações do Posto Médico e do Centro Cultural e Esportivo. Com 100% de aprovação dos moradores e apesar de não contar com qualquer apoio da Prefeitura, a aguerrida equipe de voluntários pretende seguir com as operações de higienização. Não só os moradores estão satisfeitos, a própria equipe está bastante orgulhosa pela realização do trabalho. André Constantine postou nas redes sociais uma declaração, após a operação da última quinta feira (30): – “Hoje realizamos a terceira ação de sanitização dessa vez no chapéu mangueira sanitizamos em frente à igreja Batista, a quadra da Faetec, o local conhecido como Beira do Mangue e terminamos a ação sanitizando área da Clínica da família, na Babilônia. Nós do Babilônia Utopia queremos prestar toda nossa solidariedade aos trabalhadores da clínica da família que todos os dias colocam suas vidas em risco para salvar vidas. FAVELA NÃO ESCUTE O BOLSONARO, FIQUE EM CASA” – postado em seu perfil e no grupo Morro do Leme, no Face book. Entre os moradores um dos comentários mais frequentes é de que a sanitização da favela está parecida com os trabalhos feitos na China. A equipe trabalho veste os uniformes de proteção, com todos os apetrechos de segurança e quando os motores dos higienizadores são ligados a galera vibra. A recepção dos moradores é sempre muito calorosa. Uma mistura de alívio e emoção ao ver uma ação tão importante e esperada ser realizada graças ao planejamento e mão-de-obra das lideranças locais. Pandemia e Desigualdade Social Para contextualizarmos as ações de sanitização voluntária nas favelas do Rio (capital) precisamos considerar o breve histórico da pandemia. A primeira vítima fatal do covid-19, noticiada em março pela Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro, se tratava uma mulher negra, empregada doméstica de 63 anos, que tinha diabete e hipertensão. A notícia causou vários impactos de uma só vez: • A manhã de quinta-feira (19/03) registrava a primeira morte por coronavírus no Rio de Janeiro (estado). • Contaminação após contato com a patroa, infectada na Itália. • A vítima apresentou os primeiros sintomas no domingo (15), foi consultada na segunda (16) e morreu na terça-feira (17). Naquela mesma manhã de 19/03, o Rio de Janeiro (estado) tinha registrado 64 casos da doença nas seguintes cidades: Rio de Janeiro (55), Niterói (6), Barra Mansa (1), Miguel Pereira (1) e Guapimirim (1). Os recados estavam dados e as providencias urgentes deveriam ser tomadas pelos governantes, principalmente, para salvar as vidas dos mais pobres. Alguns dias depois do anúncio dessa primeira morte “oficial” causada por coronavirus, os jornais divulgariam várias providências tomadas por algumas prefeituras em nosso estado, com destaque para as iniciativas de Niterói e Maricá, cidades localizadas na Região Metropolitana. Além de intensificarem suas ações para o combate à pandemia as duas cidades, com recursos provenientes dos royalties do petróleo, investiram na construção de um hospital de campanha em São Gonçalo, segundo maior município em número de habitantes de nosso estado e uma dos mais pobres. A “solidariedade política” praticada pelos prefeitos Rodrigo Neves e Fabiano Horta nos mostrou uma atitude muito honrosa, digna de governantes compromissados com as demandas da população, sem esquecer os mais vulneráveis. Também em Niterói está localizada a primeira favela fluminense atendida pelos procedimentos de sanitização no combate à pandemia do novo coronavírus, a Vila Ipiranga, que no final de março recebeu o pessoal da prefeitura, com equipe de trabalho, equipamentos específicos e até caminhões pipa. A cidade fechou o mês de abril com mais de 100 favelas sanitizadas. Um exemplo nacional. Como vimos, o mês de abril nos deixou comoventes exemplos de solidariedade entre os municípios de Niterói, Maricá e São Gonçalo e entre as favelas de Santa Marta, Babilônia e Chapéu Mangueira; que se uniram para juntos enfrentarem a pandemia. Há nas redes sociais a divulgação de inúmeras vaquinhas eletrônicas organizadas por lideranças de favelas para garantir a compra de alimentos básicos e, em alguns casos, o financiamento de campanhas de conscientização, com distribuições de cartilhas juntamente com os kits de higienização.

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