A Marcha sobre os corpos empilhados

Atualizado: Abr 1


Os recentes pronunciamentos do presidente atleta, contrários às medidas adotadas ao redor do mundo, na contramão dos próprios especialistas de saúde de seu (des)governo, não só pormenorizam e descredibilizam os soturnos efeitos da maior pandemia dos últimos séculos, como revela qual esporte na verdade pratica: a marcha sobre a pilha de mortos por doença ou fome.

Um escritor, cujo nome se torna outra vez receoso pronunciar, eis que a história insiste em se repetir como farsa, numa das obras que servem como lupa ao nosso sistema de circulação de riquezas, adverte que a economia vigente subtrai o valor ontológico do trabalhador e o reduz à sua força produtiva dispendida para circulação do Capital.

Trocando em miúdos, o trabalhador apenas tem valor enquanto objeto, ferramenta de um sistema econômico que também lhe furta o trabalho, na forma da mais valia, empurrando-o para baixo na escala econômica, conquanto a riqueza apenas surge da própria riqueza. Ou seja, o que produz riqueza é o seu acúmulo: dinheiro gera dinheiro, propriedade gera propriedade. O trabalhador percebe apenas o suficiente para ter de retornar nos dias seguintes ao trabalho. E assim sucessivamente. Trabalha-se para viver e vive-se para trabalhar.

A primeira providência pretendida para enfrentar o colapso econômico da pandemia foi a medida provisória nº 927/20 que dentre outros artigos continha a possibilidade de suspender o contrato de trabalho por até quatro meses. A cândida justificativa ancorava-se na preservação do emprego, esse artigo de luxo em tempos de recessão. Não obstante, será mesmo o emprego ou o pequeno empresário que esse decreto visava proteger? O trabalhador ficaria quatro meses sem receber salário. Em troca, não receberia nenhuma garantia de que não pudesse ser demitido logo após. Olhando a medida com olhos de ver – pois muitas vezes olha-se sem enxergar –, o presidente atleta, sem qualquer discussão aprofundada da medida, tentou criar na legislação, num drible ao congresso, uma situação legal pior do que a própria demissão. E mais: sequer a evitava. Após a má recepção da medida, sem justificativas, em sobressalto, para evitar maiores discussões, apagando o giz no quadro com a mão, o presidente atleta voltou atrás. Mas é possível voltar atrás ao propor a medida provisória? Evidente que não. O presidente atleta na verdade propôs uma outra medida provisória, a M.P. nº 928/20, propondo a retirada do artigo da medida provisória que propusera horas atrás. Para os que se sentiram aliviados com a benevolência presidencial adverte-se: o novo decreto suspendia o acesso às informações públicas assegurado pela Lei de Acesso à Informação nº 12.527/11. Enfim, apenas um “detalhe” pouco informado, ironicamente, que o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre Morais derrubou na Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 635, proposta pela Ordem dos Advogados do Brasil. Se fossem apenas essas idas a frente e atrás, que parecem ser o aquecimento da ginástica presidencial, seria até louvável, pois sábio é revermos nossas próprias convicções. Todavia, a análise dos comentaristas revela que esse aquecimento mais tem a ver com as pedaladas do Robinho em que o adversário, no caso o povo, é distraído pela finta do atleta, do que com mudanças reais. Pouco após, dado que o ataque da insensatez não pode parar, numa revelação súbita, espancando todos os estudos que se anunciavam ao seu redor, sozinho, o atleta com formiga no bumbum – como diria minha avó –, anuncia que possui um histórico de atleta e que pouco sofreria caso infectado fosse. O atleta, que na sua própria visão é o protótipo do herói Rambo, único capaz de desviar de balas e de vírus, enquanto mil caem ao seu lado, causa intenso rebuliço. O coro da naus dos insensatos afirma que o momento é de pressão. Coitado do atleta. Temos de ir às ruas trabalhar e rezar para tudo ficar bem, isto é, se o senhor amado bispo assim o quiser. Sabemos o que fizeste no carnaval passado. Se não tivermos pecado n´alma, sobreviveremos; do contrário, o inferno mereceremos.

Na loucura de seu ensandecido discurso ressoa a razão eugenista de que o vírus não atinge os heterossexuais, brancos, liberais na economia e conservadores nos costumes. Grande parte da ciência do final do século dezoito, com diversas variações posteriores, baseou-se na tentativa da justificação étnica, cultural e biológica dos Europeus contra os Outros. No nazismo, a imagem dogmática era os alemães esbeltos e fortes; enquanto os judeus, fracos e doentes. De fato o presidente atleta tem razão. O vírus não o atingirá. Não pela razão da saúde construída através de décadas de flexões bem feitas, mas pelas razões construídas através das lutas do materialismo histórico. Ao menor sinal de COVID-19, hospitais e médicos se dobrarão para atendê-lo. Respirador e ciência não faltarão, ao contrário dos demais. Apesar do desprezo por esta mesma Ciência, ela ainda serve a ele e ao Capital. Em minutos, o discurso do isolamento total se flexibiliza, numa espécie de kama sutra da maldade, criam-se conceitos de quarentena vertical, quarentena horizontal. A ciência curva-se aos gritos do Lucro. A história ensina: a razão da ciência poucas vezes se opõe às desrazões do capital. Pensar o contrário é ingenuidade. As desigualdades sociais, econômicas, a seletividade do poder punitivo, o confinamento dos indesejados foi construído com muita “ciência” para racionalizar a falta de razão. Os números de mortos por coronavírus cedo transformam-se em mortos por pneumonia. Os diagnósticos transmudam-se. A estatística é desenhada com base na matemática da mutreta. Mas os mortos continuam a aparecer. Mortos na Itália, mortos na China, mortos nos Estados Unidos, mortos na Espanha. No Brasil, a chegada do vírus veio pela elite, advinda de viagens de lazer ou compromissos importantes. Mas não é nos altos condomínios da Zona Sul que ele vai se alastrar em vidas e famílias. Não se enganem, a cor dos mortos, seu endereço e renda são sempre os mesmos. O silêncio toca no ar a música da morte de uma empregada doméstica contagiada por sua patroa, os jornais sequer mencionam seu nome. Toda paz e descanso a ela e a sua família. Mas o capitalismo não pode parar: vamos ao trabalho! Grita o presidente atleta. Atravessemos ruas repletas de corpos no chão, espalhando o vírus, que não se sabe exatamente como se pega, nem como se cura, desviando dos famintos, da multidão infectada. Todos, ou quase todos, com pouco. Os poucos alguns, com muito, ficarão em casa. Nada sabemos dos hospitais que mal dão conta dos problemas já existentes. Nada sabemos se estão preparados para essa multidão de enfermos que ora se anuncia. Nada sabemos da quantidade de idosos e demais populações de risco que coabitam com os trabalhadores e não podem ficar em isolamento, vertical, horizontal, diagonal ou circular. A Itaipava bucólica é para poucos. Aos poucos cresce a revolta contra a lógica individualista presente no acúmulo de álcool em gel, na estocagem de comida, de máscaras, de remédios experimentais enquanto que nem água há em outros tantos cantos. Ah, quando soubermos das impurezas da maldade do acúmulo... As reformas higienistas, o bota-abaixo, curiosamente, pariram as favelas e extinguiram os cortiços. Qual saneamento essa multidão ganhou? O ineditismo de suspender a quarentena será em nome do emprego e da economia. Mas qual trabalho e renda terá o trabalhador que sairá da sua casa, lutando contra o mortal inimigo invisível, driblando para não contaminar os mais próximos? Será que a ele lhe será dada devida atenção quando o excesso da falta transbordar os hospitais e os heróis trabalhadores da saúde (não apenas médicos e enfermeiros, mas recepcionistas e profissionais da limpeza) mais nada puderem fazer? Que tétricas figuras... fecha a porta dos teus mares! Muito há de se fazer. Todo esse estado de coisas apenas revela o poder da massa trabalhadora. Pelas favelas, quilombos modernos, navios negreiros em plena terra, muito há de tristeza, que não é passiva; mas plena potência, resistência. Muita capoeira. Vozes reunidas num portal, nada a perder além das opressões que ora esmagam. Conforme belamente descreve Conceição Evaristo (relida na criação popular “Eles combinaram de nos matar, mas nós combinamos de não morrer”): “Nosso trato de vida virou s avessas. Morremos nós, apesar de que a gente combinamos de não morrer”. Encontramo-nos no Portal. Que dessa tragédia criemos outros cantos. Rio de Janeiro, 27 de março de 2020 Luis Flávio Souza Biolchini, advogado

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